sexta-feira, 14 de abril de 2017

Da letra ao poema: incandescências

Antes do verbo, havia o nada, o vazio que tudo esconde. A letra surgiu da explosão, a palavra da primeira lembrança. E tudo foi tomando forma.

Frases feitas de terra batida, vírgulas entre o vento e a tempestade, pontos finais feitos da mais fria solidão. Os textos nadavam no mar aberto, livro grosso, pesado, tomado por páginas com jeito de onda. Na frente, apenas o horizonte, com capa e estilo livre, às vezes azul, às vezes cinza. Tudo dependia do humor do tempo.



A luz se fez fogo e forjou o poema. Coleção de palavras incandescentes colocadas fora da posição normal. Elas se encaixavam de um jeito estranho, como o magma formava o granito, entre o vulcão e a terra fria, vencida pela superfície.

Pedras foram talhadas por hábeis mãos de quem podia ver no fogo o caminho, a largura da vida. Poderia agora o autor passar por entre as chamas, inflamar o corpo e renascer palavra para quem se pensava apenas vaidade.

E o verso foi soprado pelo vento quente, que uivava nas montanhas do norte e trazia as notícias da chuva para quem vivia longe do mar, do livro aberto. E a chuva, gota após gota, molhava a vida e as páginas da rocha que um dia fora magma. O poema sofreu algumas incisões, molhado que foi por lágrimas e enchentes, e se fez claro diante do sol, dos telhados e dos olhos frágeis de quem queria saber apenas seu sentido.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Phelps ao espelho

Phelps é uma presa diante do espelho. Do outro lado, irritante, está o maior vencedor olímpico. Parado, com o olhar fixo na imagem, um homem que há pouco tempo se achava menor. Inerte diante da vida fora d'água.

Antes da Olimpíada do Rio, Phelps se via como um herói derrotado. Um mito derretido pela vida real, inglória. Deve ter sofrido a síndrome dos astronautas. Como pagar contas, atravessar a rua, tomar um café sem açúcar, depois de olhar a terra de fora? Ele voltou para a despedida. O filho foi a razão escolhida para seguir, para lutar outra vez. Talvez a última.



O silêncio do espaço é o mesmo das piscinas. O tempo corre diferente nos dois lugares. Quando enfim são fechados os movimentos, vem a euforia. Vitória em manchetes, feito em cartazes, número em almanaques.

O homem pensa estar noutro plano, em dimensão superior, mas logo se acostuma com a cobrança. Queria ainda evoluir, seguir quebrando marcas, ouvir a multidão em fúria. "Phelps, Phelps, Phel, Ph..."

Os gritos vão sendo vencidos pelo silêncio. Tudo muda tão rápido. A piscina agora é apenas um banheiro, o espelho é a realidade. Os recordes estão postos, o nome está escrito no ouro da medalha, do enfeite, e o homem não é mais a lenda. É homem apenas, e precisa agora conviver com o espelho, que, perverso, joga água e tempo na cara do herói.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Olhar de travessia

A cegueira de Borges não era escura,
era tomada pela luz das palavras.
Nada distinguia, mas dizia,
e repetia, repetia, até converter
o nada em poesia.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

O silêncio em carne viva


Ouço vozes que passaram. Juntas, faziam barulho pelos corredores e hoje fazem apenas falta. O som é engraçado. Em excesso, inquieta, mexe na melodia tranquila e descompassa o peito com gritos e ruídos. O vazio, não, o nada é o silêncio em cores fortes, em carne viva. A ausência de música ou apenas o som mudo, calado, acorda o desatino que gerou a revolta. Ciclo em desarmonia. 

Queria lembrar o estampido da última palavra. Apertei o gatilho e virei o rosto, livre da culpa e de qualquer propósito. Só não enganei a mim mesmo. O silêncio faz quase sempre tocar o alarme e alastra o som da minha fúria. Posso ouvi-lo com dificuldades, com dentes apertados e chuva no rosto. Silêncio, silêncio... Queria fazer dele canção. Mesmo que fosse triste, que desorganizasse o dia e ferisse a madrugada à faca. Lâmina afiada pela língua. Músicas que ouvimos para incitar a tormenta e forçar a passagem.  


Nem isso. O silêncio não escreve letras nem compõe ao piano. Sei que passa devagar, às vezes calmo, resistindo a tudo o que não for vivo, teimando contra tudo o que for novo. Tem acordo claro com o passado e chega, às vezes violento, para despertar cenas desgastadas, fotos descoloridas pelo excesso de luz.

Bati a porta, e não ouvi o ruído. Imagino como Beethoven compôs a nona. Aprendeu as notas quando criança. Sabia lhes dirigir a palavra, encaixar os sustenidos. Por sorte, havia resposta. Sempre há resposta na arte. Insistia em ouvi-la para libertar a tempestade que o afogava por dentro. Um dia, finalizou a composição. Continuou preso ao silêncio ritmado, insistente, mas renovou a música com o som de tanta dor contida. Encantou as plateias ao redor do tempo.

Bobagem a minha pensar no compositor. Era Beethoven, um escolhido entre tantos gênios para transformar o silêncio em sinfonia. Eu, não, não (...) Nem instrumento sou capaz de domar. Procuro frases que encarcerem tanto silêncio livre e lá está ele, mudo, em destaque, no último parágrafo sem inspiração. Tornou-se até repetitivo, como este caminho estreito pelas ruas que levam ao mar. Continuo. Nem bem sei o motivo, mas sigo caminhando pela noite. Madrugada sob censura.





Descanso um pouco. Passei por tantos silêncios que a roupa está mais pesada. É difícil até carregá-la. Cena em sequência. Estou agora sentado, descalço, com os pés presos à areia fria. Em silêncio, vejo as ondas mais fortes tentando se rebelar contra a praia frágil. Luta desigual. A lua aguça a maré, exige força no movimento da água e estampa sua luz fria no lado triste do meu rosto. Cicatriz branca, aberta à faca pela noite.

Pensei em gritar para amordaçar, enfim, o silêncio. O difícil é escolher a palavra certa, talvez um nome. Talvez. Um grito qualquer, sem letras bem escolhidas, tonteia o silêncio, não o oprime. Apenas a palavra perfeita, bem colocada, pode dar fim ao tormento insistente e fazer ressurgir o diálogo. Não tenho muitas escolhas: poderia ser comigo mesmo. Responderia a mim com um sorriso no rosto. Talvez o primeiro, talvez o último. Sem orgulho, preciso confabular com o silêncio e encontrar uma saída digna para a minha voz em desuso.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Princípios

Escrevem eles tanto por princípios
Sem notar se há forma lírica na frase
Escrevem sem um fim, por desperdício
De incertezas em versos ditos à metade

Com a pena, eles se calam em exílio
A fim de vagar e lamentar o retorno
De cobrir de palavras tantos trilhos
Já sem máquina alimentada pelo fogo

O passado se despediu quase agora
E de rastro lhes deixou o tom da alegria
Procurou abrigo nesta noite morna e
Parou por inércia no futuro que corria

O princípio procurado tão somente
Veste luto pelo fim que se inicia
Entre versos perdidos de repente
Há mais vida que em toda a poesia

(Victor Mélo)

sábado, 13 de junho de 2015

Travessia: os sertões de Brant e Guimarães Rosa

Milton Nascimento e Fernando Brant (Foto: divulgação)
Fernando Brant foi pressionado em 1967 por Milton Nascimento. A música estava pronta, mas faltava a letra. O amigo sabia da capacidade intelectual de Brant e exigiu palavras definitivas. O novo parceiro de Milton nunca havia colocado letra em canções, mas, sem alternativa, no meio do Liso do Sussuarão, se aventurou na música. Estava feito. Encheu a melodia de frases fatais.

O título e as estrofes têm clara influência de "Grande Sertão: Veredas", obra imortal do também mineiro João Guimarães Rosa. Ao ler o livro, tive certeza que a voz de Milton e a letra de Brant interpretavam o drama do jagunço Riobaldo. Nelas, os compositores cantam a saudade de Diadorim. Era a triste partida em versos mágicos. Isso talvez explique o sucesso arrebatador da canção, que marca um momento de mudança na música brasileira. É o nosso Sargent Pepper's.

Não é à toa que "Travessia", título do sucesso que impulsionou a carreira de Milton, é a última palavra do livro de Guimarães Rosa. É a consciência da passagem sem a influência do diabo, sem o pacto. A dor do homem realçada sem a desculpa pronta da superstição. O diabo é apenas o sertão. Tudo foi pensado pelos escritores Fernando Brant e Guimarães Rosa. Hoje, Milton ainda solta a voz em memória dos dois, da literatura e de Diadorim. O amor de Riobaldo representa a poesia mineira de Brant.