sábado, 26 de setembro de 2009

A rasteira e o futebol

A palavra tem a força de vencer o tempo. Muitas delas se perdem na poeira, em livros ou jornais que se deixaram envelhecer; outras, mais impetuosas, atravessam as décadas com tinta fresca e basta surgir uma oportunidade para que o seu poder desmedido seja retomado. Em 1921, o escritor alagoano Graciliano Ramos utilizou o futebol para fazer uma contundente crítica social. A profecia de que o esporte não pegaria nessas paragens deve ser entendida como uma metáfora. Ele dizia que a rasteira deveria ter mais importância, pois essa "modalidade" se adequava melhor às características do nosso povo.
A ironia ganhou status e se transformou até em teses de mestres e doutores das universidades espalhadas pelo País. Mas a palavra crua e o seu significado também podem ser usados para caracterizar o nosso atual futebol. Vejam, caros leitores, a rasteira continua em alta nos nossos clubes. Talvez, ela tenha mais força nos bastidores e se disfarce quando começa o jogo de bola. Na coxia, amigos, os interesses separam velhos companheiros e as ambições desmedidas apagam até amores infantis por um escudo.
A regra é fugir da ética e, sempre que possível, enaltecer a vaidade. Nos últimos anos, CSA e CRB se notabilizaram mais pelas rasteiras do que propriamente pelo futebol. A luta pelo poder dividiu os clubes em pequenos grupos, que, aos poucos, minaram as estruturas dos times em defesa de suas convicções de conveniência. Os poderes se desentendem, as trocas de acusações se acentuam e as páginas dos jornais são recheadas pelas desavenças entre cartolas ultrapassados. Diante da torcida incrédula, muitos dirigentes armam o seu circo, contam vantagens e atacam adversários. Por trás, alguns deles jogam ainda mais baixo, apelando para atitudes sórdidas, como a implantação de notícias falsas nos meios de comunicação. Assim, a rasteira toma as páginas, deixa a crônica de Graciliano e ganha movimentos nos novos dirigentes. Quem cai com ela, caros leitores? A torcida, os clubes e o futebol de Alagoas.

2 comentários:

Irineu Dias disse...

Com certeza, Graciliano Ramos deve ter baixado e estado ao seu lado na hora em que vc escreveu. Somando seu talento e capacidade às palavras do autor, vc me contagiou. Parabéns, fiquei emocionada. Resta saber se as vaidades e ambições vão ser colocadas de lado em prol de um bonito futebol. Duvido.

Irineu disse...

Fiquei emocionado, corrigindo o texto. Desculpe-me, é com certeza a emoção ao ler o comentário, muito bem feito.