sábado, 23 de janeiro de 2010

Editorial - Mobilização pelo Haiti


As projeções sobre catástrofes não foram suficientes para sensibilizar a maioria dos líderes mundiais há um mês, em Copenhagen. Apesar dos esforços de alguns presidentes,os países mais ricos deixaram a reunião aberta, sem soluções práticas para combater a degradação do Planeta.
Somente após as imagens chocantes geradas do Haiti na semana passada, o tom do discurso mudou. A destruição causada por aquela que a ONU considerou uma das maiores tragédias da humanidade fez chineses e norte-americanos trabalharem juntos no socorro às vítimas. A pobreza absoluta do Haiti deu mais ênfase ao poder devastador do terremoto. As construções eram frágeis, e a estrutura para atender tantos feridos inexistia. O sofrimento ganhou os meios de comunicação e as lágrimas de desespero sensibilizaram, em parte, os líderes mundiais.
É possível traçar um paralelo entre Copenhagen e Haiti. Na Dinamarca, faltava a força da piedade humana para mudar as ideias de quem pensa mais no poder do que propriamente na vida, mesmo que ela seja a do Planeta. No país da América Central, os relatos de jornalistas, o número de mortos e as fotos e reportagens exibidas em horário nobre tiveram um poder transformador. A sociedade resolveu assumir o controle e exigir atitudes enérgicas de seus comandantes. O socorro veio de todos os lados e até colocou na mesma tomada Clinton, Obama e Bush. Sim, o senhor da guerra desta década fez um agrado aos republicanos de bom coração e também clamou por ajuda aos haitianos. Atitude, no mínimo, contraditória.
A pergunta que sempre será feita nessas situações é por que foram necessários tantos cadáveres serem enterrados em vala comum para que a tragédia do Haiti ganhasse repercussão? Há anos, as crianças desse país estavam acostumadas a comer bolachas de barro para conter a fome e quase nada era feito. Existem ainda muitos Haitis espalhados pelo mundo e alguns deles estão encravados aqui mesmo no Brasil. Mas, para que o socorro seja prestado, vai ser necessário que imprensa e sociedade coordenem ações enérgicas. Por enquanto, se depender dos líderes mundiais, medidas preventivas são utópicas. Ainda é preciso cinco dígitos na avaliação de mortos numa tragédia para que chamem a cavalaria. Infelizmente, essa é a lei ditada pelo capital.

2 comentários:

Thiago disse...

O Victor é fera mesmo. Não é à toa que assumiu a editoria geral do jornal de forma interina. O cara manda muito bem em todas as áreas do jornalismo impresso.

Veleu, Victor. Parabéns!

Fernando Gonçalves disse...

Muitos líderes querem aparecer, a começar pelo Lula, que colocou na cabeça que precisa ganhar o Nobel da Paz. O Haiti é um ótimo palanque. Queria vê-lo lá, cuidando dos feridos. Por que não se inscreve como voluntário? Duvido que aceitasse.
Nobel quem merece é a Zilda Arns, mesmo que seja póstumo.