segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Formando novos leitores


A leitura é um hábito conquistado pela prática. A boa música também tem essa característica. Muitas vezes, a melodia só se torna agradável depois de, pelo menos, cinco repetições. Assim, ela destrói a barreira do novo, que, invariavelmente, causa repulsa no primeiro contato.
Os livros não devem ser impostos. Este termo, aliás, remete a obrigação, e quem se aventura nas páginas da literatura busca, a princípio, o fascínio das palavras, não conceitos organizados em frases apenas didáticas. E o hábito aflora justamente na medida em que o interesse é aguçado.
Membro da Academia Brasileira de Letras, o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro diz que é odiado por muitos adolescentes por causa de provas que professores de literatura costumam fazer sobre o seu livro Viva o Povo Brasileiro. Um calhamaço de quase 700 páginas imposto na sala de aula se torna um exercício penoso para jovens, que tendem a não gostar da obra e até da leitura de forma mais abrangente. Machado de Assis, por exemplo, deve ser lido com cautela por menores de 18 anos. Sua linguagem bem trabalhada, mas rebuscada para o português falado atualmente pelos jovens, costuma inibir leitores ainda iniciantes.
O despertar literário precisa ser cuidadosamente preparado pelos pais. Monteiro Lobato é um dos autores mais indicados ao público infanto-juvenil. As caçadas de Pedrinho são capazes de fazer um menino conhecer o sentido lúdico da literatura e buscar novos livros para dar asas a esse fascínio. Quando ele se der conta, já estará na idade adulta acostumado a Kafka, Nietzsche e Platão. Mas, até chegar às leituras mais sérias, politizantes, vai ser íntimo, primeiro, de outros bons escritores nacionais e internacionais, e, melhor que isso, vai se tornar um leitor contumaz. Esse exercício o ajudará a filosofar, entender a sociedade, ampliar o vocabulário e ter a capacidade de domar os pensamentos.
Na Europa, dá-se muita importância à literatura infantil. Os personagens de Dom Quixote ganham vida num trem na região entre a Macha e El Toboso, e transportam pequenos leitores ao mundo fantástico de Cervantes. Até os doces servidos na viagem são os mesmos dos tempos do cavaleiro andante.
No Brasil, mais especificamente no Nordeste, as ações em prol da formação de leitores são bem mais modestas. Um exemplo tirado de Alagoas mesmo é que pouquíssimas pessoas de Passo de Camaragibe conhecem a história do dicionarista Aurélio Buarque de Holanda, filho mais ilustre da cidade. Uma riquíssima fonte de inspiração para os jovens da cidade é desperdiçada pela simples falta de interesse do poder público. Precisamos dar aos livros e escritores sua verdadeira dimensão. Quanto maior for a poeira de uma biblioteca, mais oprimido será o povo que a cerca.

2 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns pelo texto.

Ailton Moreira disse...

Jornalista Victor,

Parabéns. Se todos estimulassem a leitura, com certeza todos veriam o mundo com outros olhos. Os bons livros e a educação são rumos para transformações positivas.