segunda-feira, 28 de junho de 2010

Arbitragem erra demais, mas Fifa prefere esconder o jogo

Depois de erros grosseiros dos árbitros na Copa do Mundo, a Fifa opta por reduzir - e não aumentar a tecnologia em campo. A entidade não mostrará mais os lances polêmicos nos telões dos estádios. A Fifa voltou a vetar nesta segunda-feira a introdução de novas tecnologias para ajudar os juízes e se manteve em silêncio total sobre as atuações de arbitragens que comprometeram resultados nos jogos das oitavas de final.
Enquanto isso, as empresas de tecnologia garantiram que seus sistemas de sensores em bolas são 100% confiáveis e deixariam o futebol "mais justo". Segundo as companhias, não há mais impedimentos técnicos para o sucesso dos sensores na bola e o sistema foi aperfeiçoado nos últimos dez anos. O debate da tecnologia chegou à política. O primeiro-ministro britânico, David Cameron, engrossou os apelos para que a Fifa faça uma revisão de sua posição e comece aceitar a tecnologia no futebol
No último domingo, o jogo entre Inglaterra e Alemanha entrou para a história dos maiores erros das Copas. Lampard chutou, a bola bateu no travessão e caiu dentro do gol da Alemanha. Mas o árbitro mandou o jogo seguir. Horas depois, a Argentina abria o placar contra o México com um gol irregular, validado pelo juiz. Recebendo uma chuva de críticas, a opção pública da Fifa foi a de responsabilizar o telão dos estádios pelas polêmicas, e não os árbitros. No jogo do México, o telão mostrou a irregularidade instantes depois do gol.
Mas, nos bastidores, a guerra é outra, já dura uma década e envolve contratos milionários. O debate sobre a introdução de bolas com chips em campos de futebol não move apenas ideologias diferentes sobre o esporte, mas o próprio comércio em torno do futebol.
Na cúpula da entidade, o debate passa longe de uma discussão filosófica sobre o uso ou não da tecnologia. Uma fonte da Fifa confirmou que um dos problemas é que a tecnologia de implementar um chip na bola ou câmeras nos gols para determinar se ela cruzou ou não a linha do gol é de propriedade de apenas duas empresas: a alemã Cairos e a britânica Hawk Eye. Portanto, se a entidade estabelecesse que a Copa deveria contar com a tecnologia, isso significaria praticamente um monopólio dessas empresas sobre o campo.
A tecnologia já foi patenteada pelas duas companhias que, por anos, investiram milhões de dólares para desenvolvê-las. A Adidas foi a primeira que introduziu a "bola inteligente". Agora, não estariam dispostas a cedê-la gratuitamente para concorrentes como a Nike e suas bolas, que são usadas em vários campeonatos regionais e mesmo continentais.
Se a tecnologia fosse adotada em uma Copa, a regra estipula que também precisa ser implementada nas Eliminatórias nos cinco continentes, exatamente para garantir uma igualdade de condições entre todas as quase 200 seleções que disputam as 32 vagas para o Mundial. Poucos na Fifa duvidam da capacidade da Europa de difundir a tecnologia em todos seus estádios principais. Mas poucos acreditam que a federação de futebol de Mali ou do Camboja, por exemplo, teriam condições de pagar pela tecnologia em seus estádios.
Enquanto o debate econômico sobre quem seria o dono da bola, a Fifa opta pelo silêncio em relação aos erros da arbitragem. Nesta segunda, a entidade se recusou a comentar a atuação de Jorge Larrionda, juiz que não viu o gol legítimo da Inglaterra contra a Alemanha. A Fifa também não quis falar sobre o primeiro gol da Argentina contra o México, em que Tevez estava impedido.
O problema, segundo a Fifa, é que o telão do estádio em Johannesburgo onde jogavam os latino-americanos mostrou um replay do lance, fazendo os jogadores mexicanos partirem para cima da arbitragem. O público, que viu também o lance, protestou A entidade prometeu selecionar a partir de agora os lances que são autorizados a serem repetidos no telão dos estádios. A Fifa também voltou a confirmar que não há qualquer intenção de reavaliar a introdução de sensores e câmeras em campo, algo que já existe no cricket e no tênis. Os guardiões das regras do futebol - a International Board of Football - vetou a tecnologia em março, alegando que o sistema ainda não é perfeito e que não se pode confiar nos sinais emitidos pelos sensores.

OLHOS - Por enquanto, a única opção real que a Fifa avalia é a introdução de mais dois assistentes para ajudar nas decisões sobre lances na área e no gol. A entidade admite que, depois de vários testes, há uma boa chance de que a nova medida comece a valer na Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Neste ano, será a Liga dos Campeões da Europa que adotará a medida.
Sobre os árbitros, Nicolas Maingot, porta-voz da Fifa, deixa claro: "a entidade não comenta decisões de juízes". O assessor garantiu que não há, por enquanto, qualquer indicação de que o presidente da Fifa, Joseph Blatter, se reuniria com os juízes para falar das polêmicas. Nesta terça, em Pretória, os árbitros receberão a imprensa em um evento que já estava organizado. Mas foram proibidos de falar sobre suas decisões.

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