domingo, 6 de junho de 2010

Especial - Como foi formada a seleção de Dunga

A seleção brasileira se reencontra com a Copa do Mundo no dia 15. A última impressão deixada na principal competição do futebol não foi boa. Cheio dos chamados medalhões, o Brasil foi derrotado pela França por 1 x 0, dia 1º de julho de 2006, e se despediu do Mundial ainda nas quartas. Fiasco!
A imprensa detonou a comissão técnica do escrete, comandada por Carlos Alberto Parreira. As críticas mais contundentes foram em relação ao excesso de liberdade e à desorganização no período final de preparação para a Copa.
Para tentar fazer os torcedores esquecerem a falta de compromisso daquele grupo, a Confederação Brasileira de Futebol apostou no inexperiente Dunga. Prometendo profissionalismo e amor à camisa, no tradicional estilo Zagallo, o treinador foi recebido por uma saraivada de ataques da mídia.
A palavra mais comum naquele 24 de julho de 2006 nos noticiários da seleção era “estagiário”. Dunga assumiu o cargo mais importante do futebol brasileiro sem ter nenhuma experiência marcante como treinador. “Quero trazer para a seleção brasileira a mesma vontade que tive como jogador. Vibração e motivação são imprescindíveis para vestir a camisa da seleção brasileira”, avisou o treinador no dia de sua confirmação no cargo.
Ranzinza pela própria natureza, ele iniciou o embate com os jornalistas nas primeiras entrevistas, mas garantiu que iria recuperar o orgulho da massa. Para ajudá-lo nessa complicada missão, o tetracampeão Jorginho foi escolhido para ser o fiel escudeiro. O primeiro compromisso de Dunga foi marcado para 16 de agosto de 2006, em Oslo, contra a Noruega. O time fez uma partida burocrática e empatou por 1 x 1.
Mas o jogo que ajudou o treinador a ter uma vida mais longa no cargo foi realizado no dia 3 de setembro, em Londres, contra a Argentina. Com dois gols de Elano e um de Kaká, a seleção venceu por 3 x 0 e, ali, Dunga começou a preparar seu álbum de família.
Participaram desse jogo o lateral-direito Maicon, os zagueiros Lúcio e Juan, os meio-campistas Gilberto Silva, Elano e Kaká, além do atacante Robinho, que hoje formam a espinhal dorsal da equipe titular. Além desses jogadores, os também convocados para o Mundial 2010 Gomes, Julio Baptista e Gilberto foram utilizados no clássico.

Avaliação – Com Dunga, a seleção fez seis partidas em 2006, vencendo cinco e empatando uma. O time marcou 14 gols e sofreu apenas três, saldo de 11. Com quatro tentos, Kaká foi goleador da equipe.


A primeira conquista do treinador

A partir do jogo com a Argentina em 2006, Dunga iniciou seu discurso baseado na segunda palavra que marcou seu trabalho: coerência. Ele deu um gelo nos medalhões Kaká, Ronaldinho e Ronaldo, e apenas o primeiro se criou na sua família. Sob o comando do treinador, mau comportamento fora de campo é sinônimo de esquecimento. Foi assim também com jogadores menos badalados, mas eficientes, como o ex-lateral-esquerdo do Corinthians André Santos. Ele se destacou com a camisa da seleção, mas andou saindo da linha no Fenerbahce, da Turquia, e foi alijado do grupo.
Voltando um pouco no tempo, vale destacar que Dunga ganhou a confiança da CBF com a conquista da Copa América, no dia 15 de julho de 2007. Para aumentar a importância do feito, na final, o Brasil bateu outra vez a Argentina por 3 x 0, gols de Julio Baptista, Ayala (contra) e Daniel Alves.
A campanha do time foi boa. Estreou com vitória contra o Equador, por 1 x 0, derrotou o Chile por 3 x 0 e encerrou a primeira fase em segundo lugar depois de perder para o México por 2 x 0. Nas quartas, demonstrou força ao atropelar o Chile por 6x 1 e chegou à final contra os argentinos depois de empatar no tempo normal com o Uruguai, por 2 x 2, e vencer nos pênaltis por 5 x 4. Nesse período, o time já ostentava as qualidades atuais, com um futebol marcado pela forte marcação na defesa e pelos contra-ataques fulminantes.

Balanço – Em 2007, o Brasil realizou 18 jogos, conquistando 11 vitórias, obtendo cinco empates e sofrendo duas derrotas. A equipe marcou 38 vezes e sofreu 13 tentos, saldo de 25 e média de 2,11 gols por partida. Robinho foi o artilheiro do time na temporada, marcando seis vezes.

O ano mais difícil para
a comissão técnica

Dunga também passou por um período de grande turbulência e quase deixou a seleção. Em 2008, o Brasil perdeu duas partidas consecutivas para Venezuela e Paraguai e empatou com a Argentina no Mineirão, em Belo Horizonte. Esse talvez tenha sido o auge das críticas ao trabalho do treinador, que insistia em não chamar o meia Ronaldinho Gaúcho.
O jogo foi realizado no dia 18 de junho e, no dia seguinte, Dunga se rendeu aos pedidos até do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e convocou Ronaldinho para as Olimpíadas. Com um time montado às pressas, a seleção perdeu por 3 x 0 para a Argentina, de Messi, nas semifinais, e o trabalho do técnico continuou sendo contestado. Ronaldinho decepcionou em Pequim e começou a deixar para trás a possibilidade de disputar a Copa da África.
Talvez pela conquista da Copa América ou até pelas constantes negativas de Luís Felipe Scolari de assumir o cargo, Dunga foi mantido pela CBF após o fiasco nas Olimpíadas. Nesse momento mais difícil, ele contou com a ajuda do grupo que começara a montar em 2006 e os resultados, aos poucos, surgiram. Em grande fase, Luís Fabiano foi fundamental para o time nessa temporada. Logo no primeiro jogo após as Olimpíadas, o Brasil venceu o Chile, fora de casa, por 3 x 0, com dois gols do atacante do Sevilla e um de Robinho. O time ainda oscilava nesse período e o empate por 0 x 0 com a Bolívia no Engenhão, Rio de Janeiro, atormentou o técnico e a torcida. Como a seleção jogava bem no contra-ataque, tinha sérias dificuldades para encontrar espaços numa defesa mais fechada.
A toada foi mantida na rodada seguinte das eliminatórias: goleada por 4 x 0 sobre a Venezuela em San Cristóbal e outro empate sem gols no Rio, desta vez contra a Colômbia, no Maracanã. O jogo com os venezuelanos, disputado dia 12 de outubro de 2008, marcou o retorno de Kaká ao time titular.
A temporada mais difícil da trajetória de Dunga no comando da seleção terminou com um resultado animador. Em Brasília, dia 19 de novembro, o Brasil disputou um amistoso e massacrou Portugal, de Cristiano Ronaldo, por 6 x 2. Nesse jogo, só Luís Fabiano marcou três vezes.
Balanço – Em 2008, a seleção principal do Brasil fez 11 jogos, vencendo seis, empatando três e perdendo dois. O time marcou nove gols e sofreu nove, com média de 0, 82 tentos marcados por partida. Luís Fabiano foi artilheiro do time, balançando as redes adversárias seis vezes.

Uma grande conquista na terra da Copa

Talvez para testar a capacidade de Dunga, a CBF marcou um amistoso de alto risco para a seleção brasileira. No dia 10 de fevereiro de 2009, o time teria que enfrentar a atual campeã do mundo, a Itália, em Londres.
Os jogadores estavam motivados e inspirados e o time, mais vez, passou no teste. Com gols de Elano e Robinho, o Brasil bateu os italianos por 2 x 0 e ganhou moral para os próximos confrontos da temporada.
Tchau, Gaúcho! - Já pelas eliminatórias, o Brasil empatou fora de casa com o Equador, por 1 x 1, dia 29 de março. Esse jogo merece destaque porque foi a última vez que Ronaldinho Gaúcho foi escalado entre os titulares. Dia 1º de maio, em Porto Alegre, a seleção venceu o Peru com facilidade, por 3 x 0, e Kaká ganhou definitivamente o posto de Gaúcho. Nessa partida, Ronaldinho ainda entrou no lugar de Elano, mas não convenceu.
Um jogo marcante desta temporada foi realizado em Montevidéu. O Brasil foi jogar fora de casa ainda sob desconfiança e voltou com uma goleada histórica sobre o rival Uruguai: 4 x 0. Em seguida, bateu a boa equipe do Paraguai por 2 x 1, no Recife, e começou a cair no gosto popular.
Mais um título - A Copa das Confederações seria o apronto para o Mundial. Disputada em junho do ano passado na África, sob condições bem parecidas com as da Copa, ela contava com duas seleções que se destacavam no Planeta: Brasil e Espanha.
A estreia da seleção não foi das mais animadoras. A tão eficiente defesa falhou demais e o Brasil teve dificuldades para vencer o Egito, por 4 x 3. Em seguida, duas goleadas convincentes: 3 x 0 nos Estados Unidos e na Itália. Nas semifinais, o time de Dunga pegou a anfitriã África do Sul e sofreu para vencer. Com um gol de falta de Daniel Alves no finalzinho do jogo, o time chegou à decisão contra os surpreendentes norte-americanos, que bateram a favoritíssima Espanha na outra semifinal.
A final foi emocionante. Os Estados Unidos abriram 2 x 0, com gols de Dempsey e Donavan, respectivamente, aos 10´ e 27 minutos do primeiro tempo, mas teve forças para virar. Luís Fabiano, aos 40´ da etapa inicial e aos 29´ do segundo tempo, empatou o duelo. Aos 39 minutos, Lúcio, um dos símbolos da nova seleção, decretou a virada e entregou a taça ao treinador.


Humilhando a Argentina em Rosário

A base para a Copa do Mundo já estava montada e faltava à seleção apenas garantir da classificação. Outra vez contra a Argentina, seu adversário favorito, Dunga cumpriu a missão de colocar o Brasil no Mundial. E foi com requintes de crueldade: em Rosário, o Brasil fez uma bela exibição e derrotou a equipe de Maradona por 3 x 1. Luís Fabiano brilhou em campo e marcou duas vezes, com Luisão e Datolo (Argentina) completando o marcador.
Depois desse jogo, a seleção ainda venceu o Chile, por 4 x 2, garantindo assim a primeira colocação nas eliminatórias, e perdeu sua única partida do ano, na altitude de La Paz, para a Bolívia, por 2 x 1.
Empate - O time encerrou sua participação no classificatório dia 14 de outubro, com um empate sem gols contra a Venezuela, em Campo Grande. Curiosamente, a equipe titular foi praticamente fechada em dois amistosos. Dia 14 de novembro, o Brasil bateu a Inglaterra por 1 x 0, gol de Nilmar, e Dunga dirimiu grande parte de suas dúvidas. Sem contar com Robinho e Juan, machucados, ele escalou o time com: Julio César, Maicon, Lúcio, Thiago Silva e Michel Bastos; Gilberto Silva, Felipe Melo, Elano e Kaká; Luís Fabiano e Nilmar. Sacando Thiago Silva e Nilmar e colocando os dois ausentes, encontraremos a equipe que deve estrear na Copa da África. Essa base, inclusive, foi mantida no último amistoso de 2009, contra Omã, e o Brasil venceu por 2 x 0.
Balanço – No ano passado, o Brasil disputou 17 jogos, venceu 14, empatou dois e perdeu apenas um. O time marcou 38 gols e sofreu 12, saldo de 26. O artilheiro foi outra vez Luís Fabiano, com 11 gols.


Os últimos meses
de preparação para
a Copa do Mundo

Neste ano de Copa, a seleção brasileira fez mais barulho longe dos campos. A CBF marcou poucos amistosos e Dunga preferiu não colocar seu trabalho em xeque disputando jogos contra seleções poderosas antes do Mundial.
Antes da convocação, o Brasil fez apenas uma partida, dia 2 de março, em Londres, contra a Irlanda. A base já estava formada, o time venceu por 2 x 0, mas esse confronto marcou a despedida de uma figurinha carimbada do grupo: Adriano.
Artilheiro do Brasileirão e campeão nacional com o Flamengo, o Imperador perdeu o foco no futebol em 2010. Ganhou peso, se envolveu numa série de confusões e saiu da lista por causa da tal coerência de Dunga. A novidade foi Grafite, que entrou bem na partida diante dos irlandeses, se comportou direitinho no período pré-Mundial e substituiu Adriano.
Mas ano de Mundial também é marcado por cobranças. Dunga sofreu com os pedidos insistentes da mídia e de parte da torcida por Ronaldinho Gaúcho. O meia voltou a se destacar no Milan no início da temporada e dizia que conquistaria a vaga em campo. Provavelmente por mau comportamento, não ouviu seu nome entre os 23 convocados.
Santos – Outro obstáculo enfrentado pelo treinador foi o Santos. O time da Vila colocou em campo nesse primeiro semestre um time diferente. Marcado pela ousadia e o talento de seus jovens jogadores, o Peixe aplicou várias goleadas, conquistou o título paulista e também está na decisão da Copa do Brasil. O coro da imprensa e de parte da torcida pedia a convocação de Neymar e Paulo Henrique Ganso, destaques do time paulista. A falta de tempo para testá-los e a postura mais conservadora de Dunga foram decisivas para que nenhum deles fosse chamado para o Mundial. Da Vila, quem garantiu um lugar na África foi apenas Robinho, um dos primogênitos da família Dunga. Além do atacante do Santos, apenas mais dois integrantes do elenco da seleção atuam no Brasil: Kleberson, do Flamengo, e Gilberto, do Cruzeiro.
No dia 11 de maio, saiu a lista final. O treinador apresentou os números de seu trabalho e escolheu as palavras-chave que resumem sua passagem pela seleção. “Algumas coisas que pautamos foram comprometimento, atitude, paixão e a emoção de jogar na seleção brasileira. Minha coerência é só com os fatos, a responsabilidade de montar o grupo. Cada um desde o início começou a montar sua casinha, seu tijolinho até hoje”, discursou.

Luís Fabiano e Kaká ainda não
estão 100% fisicamente

O grupo se apresentou em Coritiba para a pré-temporada antes do Mundial no dia 21 de maio. Sem agito, Dunga e Jorginho comandaram os treinamentos e tinham uma grande preocupação: recuperar Luís Fabiano e Kaká. Jogadores fundamentais para a seleção, eles sofreram uma série de lesões nos últimos meses e chegaram longe da condição ideal. Tanto que, mesmo após os trabalhos puxados antes do embarque para África, eles não demonstraram estar no mesmo nível físico do restante do time no amistoso da última quarta-feira, no Zimbábue, contra a seleção local.
O segundo jogo do ano da seleção foi um coletivo de luxo. Quando o time resolveu apertar mais um pouco, não teve dificuldades para vencer por 3 x 0, gols de Michel Bastos, Robinho e Elano. Amanhã, a seleção encerra todo o período de preparação enfrentando a Tanzânia. Nesse jogo, Dunga deve utilizar muitos atletas, até para movimentá-los, mas em sua cabeça os titulares já estão definidos há um certo tempo.
Se lesões de última hora não atrapalharem o treinador, o time que vai entrar em campo no dia 15 de junho, contra a Coreia do Norte, no Estádio Elis Park, em Joanesburgo, terá: Julio César; Maicon, Lúcio, Juan e Michel Bastos; Gilberto Silva, Felipe Melo, Elano e Kaká; Robinho e Luís Fabiano.
“Desde que eu comecei a trabalhar disse que todos têm condições de jogar. Por uma questão técnica, tática, só posso escolher onze. Mas todos que entram tentam segurar sua posição. Dentro da seleção, todos são titulares. E muitos que entram durante os jogos têm resolvido o problema”, comentou Dunga, que já comandou a seleção em 54 partidas, vencendo 38, empatando 11 e perdendo cinco. Com ele, o Brasil tem um aproveitamento de 76,2%.

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