terça-feira, 6 de julho de 2010

O legado alemão

Mutante, o futebol pode assumir vários disfarces. Pode mexer com a imaginação popular, pode servir de paliativo para as dores da realidade, mas, em hipótese nenhuma, pode assumir a forma de tragédia. O jogo é lúdico, é moleque, e os torcedores deveriam usá-lo, moderadamente, apenas como uma fonte de alegria.
Fiquei preocupado com as proporções tomadas pela derrota da seleção brasileira na Copa. Teve gente na TV falando em bater no meio-campista Felipe Melo. Alguns integrantes da imprensa destilaram ódio quase mortal contra o técnico Dunga. O goleiro Julio César parecia ter perdido um parente próximo no desembarque da seleção. Fortes foram as cenas dele com a mãe no Rio de Janeiro. Era o choro do fracasso.Tudo isso vale a pena? Não, amigos. O Brasil já está maduro o suficiente para não mais comparar derrotas esportivas a desastres.
Antes de a bola rolar,+ o Mundial tinha, a meu ver, dois grandes favoritos, a nossa seleção e a Espanha. Eram, sem dúvida, os times que apresentaram o melhor futebol nos anos que antecederam a grande competição. Um pouco mais abaixo estavam Holanda, Alemanha, Inglaterra e Argentina. Desorganizadas, França e Itália não demonstravam potencial para lutar pelo título. Como já escrevi nesse mesmo espaço, o título não deveria sair desse grupo.
Dentro desse contexto, teríamos clássicos decisivos, principalmente, após as oitavas de final. Algumas boas seleções iriam ser eliminadas nesses duelos e, assim, o Brasil foi derrotado. Mesmo favorito diante dos holandeses, o time de Dunga não conseguiu ao menos se igualar ao adversário na preparação psicológica. Sofreu gols bobos, perdeu um jogador e se despediu do Mundial.
A Copa não perdoa erros em sua fase decisiva e, por cometê-los em excesso, a seleção foi eliminada. Ponto. Tudo dentro do contexto. O Brasil tem adversários de qualidade, que estudam os nossos movimentos e conhecem nossos pontos fortes e fracos. Não há máquinas imbatíveis no futebol atual. Em 90 minutos, há muitas variantes, principalmente, quando uma equipe não é tão superior à outra.
Escrevo isso para não ficármos buscando vilões, carrascos, fantasmas ou monstros do Lago Ness nos próximos meses. Os atletas que disputaram a Copa honraram a camisa canarinho e lutaram para alcançar o objetivo maior. Perderam? Paciência. Hoje, sem dúvida, a Alemanha é o time mais badalado da Copa. Adquiriu esse status ao longo dos cinco jogos que disputou. Isso não quer dizer que, após atropelar a Argentina por 4 x 0, está livre de uma derrota na semifinal de amanhã contra a Espanha. Mas, como bem disse o lateral Lahn na semana passada, eles estão prontos para vencer e perder. Em 2006, dentro de casa, a torcida alemã fez uma festa inesquecível no Portal de Brandemburgo para celebrar o terceiro lugar na Copa. Deveríamos aprender com eles a fazer do esporte uma brincadeira. O Mundial é marcado pela confraternização de povos distintos e pela magia proporcionada pelo futebol. Nele, não há espaço para ódio, rancor ou violência. Formemos agora as nossas frentes para 2014, lutemos para vencer as partidas que se seguem e deixemos a bola se encarregar de formar novos campeões. Se eles demorarem mais tempo para vestir a camisa brasileira, não há motivos para desespero. São os ciclos inevitáveis do esporte.

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