segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Especial - Todo o processo de uma "peneira"


Olheiros de grandes clubes vão buscar revelações no Nordeste
 A bola corria ansiosa embaixo de chuva num campo localizado no povoado de Ipioca, em Maceió. Meninos, em sua grande maioria maltratados pelo País, disputavam uma partida como se buscassem um abrigo no futuro. Eram apenas 30 minutos para provarem o seu valor. Estava ali a chance, talvez a única, da evolução social, da mudança de vida.
Quarta-feira, dia 22 de setembro de 2010. Dez times foram divididos num pequeno torneio disputado na Associação Atlética Banco do Brasil (AABB), que levaria os destaques a grandes clubes do futebol brasileiro. Com o sucesso de alagoanos pelos quatro cantos do País do futebol, os "olheiros" limparam suas lentes e vieram buscar talentos genuínos em Alagoas, sem vícios e com muita vontade de mudar sua trajetória. Eis a explicação para tantos jogadores locais, como Denis Marques, Morais e Elton, despontarem no futebol bem longe de nossos clubes.
Terminada a partida entre Esporte Clube Flexeiras e F.F. Sports, uma cena chamou mais a atenção de quem acompanhava a "peneira" do que os dribles do destaque do jogo: o pequeno Wálber da Costa, de 11 anos, chorava as dores do esporte.
"Fiquei muito triste porque nosso time perdeu de 3 x 0 para o F.F. Sports. Essa foi a primeira peneira de que participei, e o jogo foi eliminatório", lamentou o menino, que, um pouco mais calmo, respondeu com orgulho quando foi perguntado sobre sua posição em campo: "Sou lateral-esquerdo!".
O treinador do time de Wálber reuniu os garotos após a derrota e, com segurança, tentou animá-los. "Gente, eu sei que todo mundo quer ganhar, mas essa não vai ser a última oportunidade de vocês. Não quero ver ninguém triste ou chorando. A gente tem que levantar a cabeça. Os caras tinham jogadores mais velhos, são de 96. Bola pra frente", falava o ainda jovem Alex Silva, que, aos 21 anos, já foi apresentado ao lado sombrio do esporte.

Técnico Alex Silva tenta animar os garotos do Flexeiras
Técnico é exemplo
de perseverança

Alex Silva havia passado pelo Santa Cruz e Sete de Setembro e, em 2008, era profissional do CSA, mas uma grave lesão o afastou dos gramados. "Sou meia-atacante, conhecido no meio esportivo como Alex Flecha. Infelizmente, tive que parar aos 18 anos, quando estava no CSA. Vida de boleiro é complicada, né? As coisas começavam a se acertar na minha carreira, mas no dia 1º de maio de 2008 tive a péssima ideia de disputar uma pelada com os amigos em Flexeiras, minha cidade. Resultado: sofri lesões no ligamento cruzado e no menisco", contou Alex.
O técnico do time de Flexeiras disse que se apresentou ao CSA no dia seguinte com o joelho inchado e não renovou o contrato. Ele precisava ser submetido a uma cirurgia no valor de R$ 5 mil. "O clube agiu corretamente comigo, até porque não me machuquei jogando no CSA. Meu contrato acabou no dia 30 de abril de 2008. Foi muito azar, mas Deus sabe o que faz. Os médicos do clube fizeram um tratamento conservador, só que o caso era grave, precisava mesmo operar. Passei um ano e sete meses tentando conseguir  o dinheiro para fazer a cirurgia. Aliás, a metade, já que o médico Sérgio Canuto, da Ortoclinic, se sensibilizou com a minha situação e não cobrou a outra metade. Agora, eu estou trabalhando a parte física para tentar voltar", explicou Alex Flecha.
Apaixonado pelo esporte, ele resolveu trabalhar com meninos que buscavam, em Flexeiras, espaço no futebol. "Quero ajudar esse pessoal. Temos os times sub-15 e esse sub-13 por lá e trabalhamos com mais de cem meninos. Em Flexeiras, há apenas um campo, e não dá para treinar muito. O apoio quase não existe, mas a gente insiste. O grupo veio jogar aqui, por exemplo, com o terno (uniforme) emprestado. Além da parte esportiva, o projeto também é social. A gente ajuda a educar esses meninos carentes, tentando mostrar a eles os caminhos corretos".

Clique em "Mais informações" e leia o material completo




Facilitador de talentos

O "peneirão" de Ipioca foi organizado pelo ex-jogador do CSE Marcos Bezerra. Ele fechou parcerias para aproveitar o espaço da Associação Atlética Banco do Brasil e convidou pessoas conceituadas no futebol brasileiro para observar as revelações do Estado. Em 2003, Marcos fundou o Instituto de Desenvolvimento Social e Esportivo do Sertão Alagoano (Indessal), que tem como um dos objetivos apresentar meninos bons de bola de Alagoas a grandes clubes do País. O seu trabalho foi iniciado há sete anos em São José da Tapera, cidade que já teve o pior índice de desenvolvimento humano do Brasil no início da década.
"O tempo passou, e agora estamos tentando dar um pouco mais de condições para os meninos mostrarem o seu talento. Na primeira peneira, que foi acompanhada de perto por vocês de O JORNAL, tínhamos 900 meninos e pouca estrutura. O campo de terra batida não facilitava as coisas e também faltava material. Em Tapera, também não tive apoio das autoridades, mas não desisti. Agora, estamos inaugurando uma subsede em Maceió e dando a oportunidade de garotos, em sua maioria de famílias muito humildes, serem avaliados por observadores de Santos, Bahia, Vitória, Inter e Grêmio", declarou Marcos.
O presidente do Indessal disse estar animado com o acordo fechado com a AABB para utilizar as instalações do centro de Ipioca, onde os profissionais de CRB e CSA já realizaram muitos treinamentos este ano. "As condições são boas. Também arrumamos material, para que o trabalho seja realizado com organização. Hoje, nosso projeto contempla 300 meninos", disse.
O ex-jogador Toninho, que já defendeu as cores de CSA e CRB, faz parte da equipe de Marcos. "Esse tipo de trabalho é importante. Os garotos são avaliados, e ninguém cobra R$ 1,00. Além disso, através da parceria com olheiros de grandes clubes do futebol brasileiro, podemos encaminhar os destaques. Aqui é feita uma triagem. Avaliamos aqui meninos de 93 a 98. Esse trabalho organizado também é mais seguro para os atletas. Há muita gente desonesta no futebol, e é muito importante para os pais lidarem com agentes credenciados", destacou Toninho, que parou de jogar aos 35 anos.
"Já atuei em CRB e CSA e tive que largar o futebol profissional há três anos por causa de um infarto. Graças a Deus, me recuperei e estou trabalhando em outras áreas. Depois disso, já passei pelas divisões de base do CRB e agora também tenho um projeto social. É legal poder ajudar quem precisa", destacou.

Jogadores humildes têm mais chances

É voz corrente nas divisões de base do futebol que o garoto de origem humilde tem mais chances de vencer na carreira. O coordenador das Divisões da Base do Vitória, Carlos Anunciação, o Carlão, era um dos olheiros que acompanhavam o "peneirão" em Ipioca. Ele explicou o motivo: "Isso acontece porque o menino pobre está mais disposto a pagar o preço exigido pelo futebol. São grandes os desafios enfrentados pelo boleiro até chegar ao time profissional, e, normalmente, salvo algumas exceções, meninos de classe média, por exemplo, sentem mais dificuldades em ficar longe da família e em se adaptar mesmo ao meio".
De acordo com o ex-jogador Toninho, há uma preferência dos clubes para trabalhar com garotos mais humildes. "Realmente são poucos os jogadores de destaque no futebol brasileiro que vieram das classes mais altas. Existe uma pressão da família para eles estudarem e buscarem objetivos menos arriscados do que o futebol. Um exemplo de sucesso que eu poderia citar é o do atacante Fernandão, atualmente no São Paulo. A família dele é rica, mas o atleta pagou o preço, passou pelas fases seletivas do futebol e foi até campeão mundial", argumentou.
PADRINHOS - Nos clubes, também há interferências de conselheiros e dirigentes para que parentes ou jogadores indicados por eles sejam aceitos na base. Carlão confirmou que esses pedidos especiais também são comuns no Vitória, mas a atenção especial é dada apenas fora de campo.
"Não podemos deixar de atender a um pedido de um conselheiro do clube para observar um garoto; mas daí a colocá-lo no time titular há uma distância enorme. Damos a atenção devida em relação a horário e alimentação do garoto; checamos seu material; e os psicólogos atendem com presteza. Porém no campo de jogo é que a vaga é decidida. O futebol é muito seletivo. Se um menino for filho de um dirigente e não for bom de bola, não vai passar na frente de quem é fera. A torcida não deixaria", explicou.

Empresário observa jogadores para Santos, Inter, Grêmio e Bahia

Ex-jogador do Bahia e da Catuense, Rivelino Morais deixou os gramados aos 29 anos. Ele levou a experiência que adquiriu como atleta para fora das quatro linhas e hoje, aos 35, percorre o País com o olhar aguçado, buscando novos talentos do futebol brasileiro.
Rivelino tem uma empresa chamada Bahia Soccer e trabalha para o agente Fifa Reginaldo Campos. Sua área de atuação é o Nordeste, e sua missão é indicar jovens jogadores para Santos, Bahia, Grêmio e Inter.
"Não viemos a Alagoas a passeio. Fazemos um trabalho sério de observação e costumamos levar alguns garotos de “peneirões” como esse para grandes clubes. Chegando lá, eles são melhor avaliados, já que vão enfrentar meninos que já passaram por esse processo seletivo e têm qualidade. Quem se destacar no meio de outros jogadores bons de bola é aproveitado. O período inicial dessa triagem é de 15 dias. Nesse tempo, o garoto também dá mostras se vai sentir falta de casa, dos amigos, e o seu potencial é observado com mais rigor", contou Rivelino.
 O olheiro disse que sua empresa também tem muitos parceiros espalhados pelo País. Quando ele não pode fazer a observação nos locais em que os talentos despontaram, confia na indicação e avalia o jogador em Salvador.
"A princípio, observo as partes técnica e física dos garotos. Depois, são feitas avaliações mais específicas. Em peneirões como esse de Maceió, os jogadores dão indícios do que podem fazer, mas existem fatores externos que contribuem para ele vingar ou não no futebol, como a saída de casa, por exemplo. Apesar dessas dificuldades, a safra atual é muito boa. Só neste ano, encaixei de 12 a 15 garotos em grandes clubes", disse o observador.

Técnicos da base estão podando os talentos

Perguntado se a supervalorização do aspecto físico e as exigências de resultados das equipes da base estão inibindo a formação de novos armadores no futebol brasileiro, o empresário Rivelino Morais alfinetou os treinadores das categorias inferiores.
"Há muitos técnicos na base que optam pelo esquema 3-5-2, e isso realmente sacrifica os jogadores mais habilidosos. Nós, olheiros, damos importância à questão física, mas também não viramos as costas para o talento nato. Se fosse assim, não haveria espaço no futebol para jogadores como Romário, Garrincha e Maradona, por exemplo. E há esse espaço. Apesar de esses que citei não fazerem parte do padrão de um atleta, a qualidade técnica superava as dificuldades físicas, no caso do Garrincha, e a estatura, no caso de Romário e Maradona. O futebol continua sendo democrático", explicou.
RANKING - Mesmo trabalhando com o Bahia mais diretamente, o olheiro dá destaque às categorias de base do Vitória. "Eles são uma referência não só no Nordeste, mas no Brasil. Destacaria também o trabalho desenvolvido no País por Inter, Grêmio e Cruzeiro. No Rio, o Fluminense está à frente dos demais".
Rivelino considera as competições realizadas nas divisões de base importantes para o desenvolvimento dos atletas. "O trabalho feito no dia a dia é até didático, já que o garoto aprende noções de tática e pode corrigir defeitos de fundamento, mas os campeonatos ajudam porque servem de parâmetro. Nessas competições, o trabalho específico dos atletas e dos clubes é comparado e devidamente avaliado".

Pressa do mercado faz clubes espalharem olheiros

A necessidade de os grandes clubes reestruturarem seus times cresceu demais nos últimos anos. O mercado europeu consome grande parte dos talentos nacionais no futebol, e o processo de renovação se torna mais acelerado a cada ano.
Por isso, os jovens talentos não precisam mais se destacar nos clubes locais para entrarem na vitrine do futebol. Os olheiros deixaram de lado as fronteiras e vão buscar novos craques em cidades bem distantes das sedes de seus clubes. A estrutura dos times mais conhecidos do País conta para os pais de jogadores promissores. Assim, fica cada vez mais difícil torcedores de ASA, CRB e CSA verem nascer na base talentos como o meia-atacante Dida, que brilhou intensamente com a camisa do Azulão na década de 50 antes de buscar a glória no Flamengo e na seleção brasileira.
"O futebol hoje mudou muito. Da mesma forma que estamos observando jogadores aqui em Alagoas, outros clubes vão à Bahia buscar talentos antes do Vitória. Olheiros de clubes internacionais também observam de perto nosso mercado. Acho que ainda há espaço para todos. O Corinthians Alagoano, por exemplo, faz um trabalho diferenciado de base por aqui", analisou o coordenador das Divisões de Base do Vitória, Carlos Anunciação.
"O Vitória faz esse processo de garimpagem de talentos em todo o Brasil. Trabalham comigo mais três profissionais, o Adílio, o Baiano e o Edgar, e também temos contatos, como o Rivelino Morais e o Francisco Ferro. Assim, podemos buscar atletas de qualidade para a nossa base. Não adianta ficar apenas esperando que o jogador se apresente. É preciso sair, observar e às vezes conversar com os pais. Não me canso de fazer essas viagens", informou.

Escolinhas não são indicadas

Os olheiros dos grandes clubes do País são quase unânimes em dizer que as escolinhas do futebol não são os caminhos mais indicados para buscar talentos. "Eu não vou observar peneiras pagas. Isso seleciona jogadores com mais condições financeiras e prejudica o trabalho do observador. As escolinhas ensinam os fundamentos, mas não preparam o jogador, justamente porque muitos garotos talentosos não podem pagar mensalidade", destacou o olheiro Rivelino Morais.
Ex-presidente do CSA e hoje dono do clube F.F. Sports, Francisco Ferro critica os grandes clubes de Alagoas. "Esse trabalho de garimpagem tinha que ser intensificado pelas grandes equipes do Estado, mas os dirigentes preferem gastar dinheiro com jogadores já em fim de carreira. Esse é um dos motivos pelos quais nossos times estão endividados e sem perspectivas", alfinetou o empresário.
"O CRB, por exemplo, iniciou a temporada apostando nos jogadores da casa. Não venceu o campeonato, e o projeto foi jogado no lixo. Trabalho nesse meio agora profissionalmente e posso atestar que seria melhor o time ser rebaixado e investir na prata da casa do que se manter sem revelar ninguém. No CSA é a mesma coisa. Quando falamos de base em Alagoas, só podemos citar o Corinthians, que é referência porque depende de suas revelações para viver. CSA e CRB estão presos ao passado", criticou Ferro.

A idade ideal para o garoto deixar a casa dos pais

O tempo é inimigo dos pequenos boleiros. Os clubes querem trabalhar com jogadores mais jovens, que podem, assim, passar por várias etapas seletivas até chegar ao profissional. Coordenador das Divisões de Base do Vitória, Carlos Anunciação disse que há uma idade ideal para o garoto ser selecionado.
"A melhor idade é 13 anos. Engraçado, com 12, as chances de o menino não se adaptar ao clube são muito maiores. Muitos garotos são aprovados nas peneiras que fazemos pelo País, têm o consentimento dos pais para irem à nossa sede em Salvador, mas sentem falta de casa e não conseguem render. Isso também acontece com meninos mais velhos, mas, a partir dos 13, eles absorvem melhor o impacto da mudança. Por isso, observamos com mais cuidado os jogadores nessa idade. A partir dos 14, eles são mais propensos a terem vícios das peladas de rua e queimam etapas que consideramos importantes. Quanto maior for a idade, mais difícil é encontrar um jogador que chegará ao futebol profissional. Sempre destacando, é claro, que há exceções", explicou Carlão.
Um dos jogadores de maior destaque já formados no futebol alagoano, o goleiro Dida (ex-Cruzeiro, seleção e Milan) foi descoberto pelo coordenador da base do Vitória aos 16 anos.
"O Dida foi um fenômeno. Descobrimos o jogador aqui em Alagoas quando estava na equipe profissional do Cruzeiro de Arapiraca. Ele foi a Salvador e tinha realmente muita qualidade. Concentrado, o Dida se destacou na Copa São Paulo e, em 93, já foi o goleiro do Vitória no time que chegou à decisão do Brasileiro contra o Palmeiras. Essa foi uma das joias que encontramos em Alagoas (Wilson e Gerônimo também foram da geração de Dida). A água daqui é muito boa. Há muitos talentos prontos para serem descobertos. Por isso, estamos aqui enfrentando sol e chuva para observar esses meninos", contou Carlão.

Os três níveis do boleiro

 Os observadores dos grandes clubes costumam dividir o futebol em três categorias de avaliação: a do talento, a do bom jogador e a do esforçado. Para ganhar uma chance na base, o atleta precisa se encaixar em um desses perfis.
"Não participamos de peneiras apenas para buscar os jogadores “fora-de-série”. Esses são fáceis de reconhecer, mas difíceis de encontrar. Um Neymar, por exemplo, arrebentaria numa peneira como essa. Driblaria todo mundo, marcaria muitos gols e não seria preciso ninguém especializado para descobrir o seu talento. Até o vendedor de picolé bateria os olhos no moleque e diria: ´É este!`. Mas o futebol precisa também do jogador esforçado, o carregador de piano. Aquele atleta que se mata em campo na marcação para o talentoso se destacar. Esses precisam ter potencial físico; e, para descobri-los, é fundamental ter o olho clínico", revelou o olheiro Rivelino Morais.
Coordenador das Divisões de Base do Vitória, Carlos Anunciação disse que o bom jogador compõe grandes times, mas não costuma desequilibrar como o craque. "Esses sabem virar um jogo, batem falta ou são centroavantes sem muita habilidade, mas com faro de gol. Temos muitos desses espalhados pela Série A. O craque é mais raro. De cem, só sai um com capacidade de desequilibrar. No Brasil,  considero o meia Douglas, do Grêmio, um jogador diferenciado. Ele está no nível dos argentinos badalados (D´Alessandro, Conca e Montillo). O Ganso também é  excepcional", destacou.

Olheiro observa os fundamentos

Treinador das categorias de base do CRB, Joãozinho Paulista disse que observa, principalmente, os fundamentos dos garotos nas peneiras que acompanha.
"O jeito de bater na bola é muito importante. Você reconhece o talento pela forma que ele chuta, executa um lançamento e dá um passe. Também observo o posicionamento. Tem muito garoto que corre o campo todo e não guarda posição. A gente percebe quem tem noção de cobertura, quem se coloca bem na área. Com essas características, o jogador pode ser levado para o clube para ser trabalhado com carinho", explicou Joãozinho, que foi um dos melhores centroavantes do futebol alagoano.
"Essa é uma posição difícil, mas gratificante. Para trabalhar nela, você precisa, antes de qualquer coisa, gostar de fazer gols. Eu gostava, e muito. Hoje, para um jogador de área fazer sucesso, é fundamental ter força, velocidade e saber se posicionar. Ele também precisa saber arrematar. No CRB, uma de minhas apostas é o garoto Talisson, que leva muito jeito para a coisa", revelou.

Lesões e baladas são inimigas dos atletas

A glória e o fracasso andam juntos no futebol. Os contratos milionários e os holofotes da imprensa em cima dos principais jogadores escondem o quanto é difícil para um atleta ultrapassar todas as etapas do esporte e se tornar profissional. Mesmo quando atingem esse objetivo, não são poucos os boleiros que tombam em combate.
Os olheiros dizem que essas incertezas movem as divisões de base. "O futebol não é uma ciência exata. Muitos fatores contribuem para um jogador brilhar ou se apagar nos gramados. Nesses meus quase 30 anos de profissão, já vi muitos casos de garotos que arrebentavam na base e não se firmaram. Pela experiência que adquiri, diria que os maiores inimigos dos jogadores são as lesões e as baladas. A mistura delas pode ser fatal para o futuro do atleta", afirmou Carlos Anunciação, coordenador das Divisões de Base do Vitória.
Carlão conta que o melhor jogador das categorias inferiores do Vitória foi um meia chamado Kléber. O boleiro foi convocado várias vezes para a seleção brasileira e era a grande aposta do clube. "Realmente fizemos muitas projeções em relação a ele. Era um jogador de um talento extraordinário, com impressionante capacidade técnica. Muitos dirigentes do Vitória achavam, inclusive, que o Kléber seria negociado para um grande clube do futebol internacional. Passou o tempo, ele estreou no profissional sob grande expectativa, mas inexplicavelmente não se destacou. Coisas do futebol. Às vezes, um garoto esforçado na base pode se tornar um jogador de muita qualidade, e um jovem craque pode se perder no meio do caminho", explicou.
"O Daniel Alves, hoje na seleção brasileira, foi de contrapeso para o Bahia. Chegou para ser reserva e ganhou força com o passar dos anos. Foi para o Sevilla e agora é um dos destaques do poderoso Barcelona. Exemplos como esses são comuns no futebol", emendou.

Vitória é a referência do Nordeste

Na década de 80, o Vitória vivia à sombra do rival Bahia. O Tricolor conquistou o cobiçado título brasileiro de 1988 e sobrava entre os clubes do Nordeste. Os dois rivais de Salvador tomaram caminhos opostos nos anos que se seguiram, e o sucesso do Rubro-Negro veio a partir do investimento na prata da casa.
Coordenador das Divisões de Base do clube, Carlos Anunciação lembra que o projeto começou no início da década de 90. "A partir do momento em que o Vitória decidiu quais caminhos iria seguir, iniciamos um trabalho ousado em 1991. O clube investiu na formação de atletas, e, aos poucos, nós fomos fortalecendo os núcleos. Saímos buscando novos valores pelo Nordeste, e o resultado já apareceu dois anos depois. Com uma base que brilhou na Copa São Paulo de Juniores, o Vitória surpreendeu os tubarões do futebol brasileiro e chegou à final do Brasileirão contra o Palmeiras. Foi uma geração espetacular, que tinha Dida, Alex Alves, Paulo Isidoro...".
O clube baiano continuou revelando grandes jogadores para o futebol brasileiro e conquistando os troféus mais importantes do mundo nas divisões de base. "O Vitória passou a ser referência na base. Nosso clube é conhecido nos quatro cantos do Planeta por causa desse investimento e não pode perder essas características, até porque é difícil competir com os grandes clubes do eixo Sul-Sudeste no que diz respeito a recursos para contratar e montar equipes fortes. Fazemos isso com atletas identificados com a nossa camisa e também temos um ótimo retorno financeiro. Não foi à toa que o clube foi finalista este ano da Copa do Brasil", detalhou. "Hoje, o lema do Vitória é ´22 jogadores convocados para a seleção brasileira´. Essa frase resume nosso trabalho", completou Carlão.

Crise mudou os rumos do clube

 Em 2004, o Vitória mudou sua política de investimento na base e trouxe medalhões para a disputa do Brasileirão. Já consagrados, os baianos Edílson e Vampeta retornaram ao clube, que começou até bem o Nacional. Mas, no decorrer da competição, o clube entrou numa séria crise financeira e despencou na tabela, sendo rebaixado para a Série B. Quando todos pensavam que o Rubro-Negro retomaria o posto na elite, uma sequência de maus resultados na Segundona afundou ainda mais o clube.
"A queda para a Série C, em 2005, foi catastrófica. Não se faz divisão de base sem recursos, e, com os seguidos rebaixamentos, o dinheiro sumiu e houve cortes profundos nos investimentos feitos na base. Bons profissionais foram demitidos. Felizmente, com garotos da casa mesmo, aos poucos, o clube foi se reerguendo, voltando à Série B, em 2006, e à elite do futebol brasileiro, em 2008", lembrou Carlão.
Hoje, de acordo com o coordenador das Divisões de Base, o Vitória voltou a ter uma grande estrutura. "Para revelar talentos e mesmo levar atletas promissores para o clube, é preciso dar condição aos meninos. Contamos com mais ou menos 150 profissionais. Além das comissões técnicas, temos psicólogo, assistente social e pessoas preparadas para dar assistência a esses garotos. Atualmente, o Vitória gasta entre R$ 150 mil e R$ 200 mil por mês para manter a qualidade nas divisões de base", informou

O trunfo dos times alagoanos

Nem tudo está perdido para os clubes alagoanos por causa de um fator importante na formação do atleta: o ambiente. A adaptação de jovens promissores em cidades distantes da sua aldeia não é das mais fáceis. Por mais que os assistentes sociais e os psicólogos trabalhem diariamente com o garoto, a falta de casa atrapalha, muitas vezes, sua carreira.
Ex-presidente do CSA, Francisco Ferro disse que por isso o Azulão continua revelando bons jogadores. "Existe essa questão de alguns jogadores preferirem ficar perto da família na adolescência. Muitos pais também não querem perder o filho de vista. Assim, mesmo sem a estrutura oferecida por grandes clubes do futebol brasileiro, CSA e CRB ainda revelam atletas. Posso citar o caso recente do Alisson, que é jogador do F.F. Sports. Ele tinha uma boa proposta do Ceará, mas preferiu jogar no CSA. O atleta se identifica com o clube e, jogando no Mutange, não perderia suas raízes. O coração é a única forma de clubes que investem pouco na base conseguirem revelar bons jogadores", explicou o dirigente.
Vice-presidente social do CSA, o psicólogo Hugo Moura disse que o ambiente é importante para a boa formação do atleta. "Os meninos têm uma estrutura frágil. O Staney, que já se profissionalizou no clube, disse que chorava querendo voltar quando saiu do Estado. Não é um processo fácil. Quando dão os primeiros passos no futebol, os garotos são inocentes e sentem dificuldades de adaptação até num time de sua cidade. Por isso, no CSA, o menino passa por um período de adaptação de duas semanas antes de fazer qualquer viagem", declarou Hugo, que comanda interinamente as divisões de base do Azulão.
 Ídolo da torcida do CRB, o goleador Joãozinho Paulista hoje é treinador da categoria sub-18 do clube. Segundo ele, é importante para o garoto se identificar com a camisa que veste na base.
"O ideal é que o jogador fique na sua cidade, com o apoio fundamental de pai e de mãe, e atue no clube do coração. Aqui no CRB, mesmo enfrentando muitas dificuldades financeiras, damos esse suporte às nossas revelações. É claro que, se tiver a cabeça boa e receber uma excelente proposta para jogar num clube de ponta do Brasil ou no futebol internacional, ele deve avaliar", analisou.

Joãozinho Paulista é o olheiro do CRB

Joãozinho Paulista chegou a comandar com relativo sucesso o time principal do CRB, mas, a pedido do vice de futebol amador, Ariston Nunes, aceitou a proposta de voltar à base.
"Gosto do trabalho que faço no clube. Amo esse escudo, e muito do que tenho no futebol devo ao CRB. É um orgulho poder colocar jogadores que fui buscar nos lugares mais distantes do Estado na equipe profissional. Quando assumi a condição de treinador do sub-18, iniciei um projeto de entregar entre dois e três talentos da base por ano ao técnico do time profissional", disse Joãozinho, o maior artilheiro da história do Galo.
"Dentro das possibilidades do clube, fazemos um bom trabalho. Temos uma boa estrutura na Pajuçara, com concentração para os meninos, alimentação... Posso dizer que tenho respaldo da diretoria. Não dá para comparar com o Vitória, por exemplo, mas fazemos tudo no CRB com dedicação e carinho. Dessa forma, colocamos recentemente o lateral-esquerdo Valdeir no Palmeiras, e o meio-campista Júnior Murici, que marcou um gol nesse último jogo dos profissionais contra o América-RN, está sendo sondado por grandes clubes do País".

Regatas vai buscar jogadores fora de casa

Joãozinho informou que trabalha observando jogadores em "peneirões". "Recentemente, fizemos um trabalho de observação em Canhotinho, Pernambuco, e trouxemos dois meninos de lá. Também realizamos um "peneirão" em Matriz do Camaragibe. O CRB não está parado. A torcida pode ficar tranquila", avisou.
O vice de futebol amador, Ariston Nunes, defende o trabalho de base do CRB e diz que não é bom para o futebol alagoano a vinda de olheiros de grandes clubes ao Estado. "Vejo isso com preocupação. Antigamente, os nossos melhores jogadores passavam pelos nossos clubes. Você tinha um Roberto Menezes no CRB, um Paranhos no CSA. Tínhamos na base o melhor dos nossos talentos. Hoje, é comum os atletas saírem muito cedo de Alagoas. Não é bom. Mas não podemos baixar a cabeça", afirmou o dirigente.
"Estamos em atividade agora não com o ímpeto de quando o time profissional estava jogando, mas, na medida do possível, vamos trabalhando os nossos talentos. Temos uma equipe de oito pessoas na base, que se multiplica nos momentos mais difíceis. Vivemos também um período de transição política, mas, enquanto o Serafim for o presidente, vou tocando o barco com os garotos", avisou Ariston.
Segundo o vice-amador, o CRB gasta entre R$ 3.600 e R$ 4 mil com as categorias inferiores. "Esses são valores aproximados. Recebemos muitas doações, dirigentes colocam dinheiro do próprio bolso. Não temos um número preciso", explicou.

Ex-presidente do CSA investe nas revelações

Em 2006, o empresário Francisco Ferro chegou à presidência do CSA. Não passou muito tempo no cargo e, com uma língua afiada, deixou o clube atacando alguns dirigentes e o Conselho Deliberativo. Hoje, ele aposta nas divisões de base do futebol como uma boa alternativa de investimento.
"A diferença dos meus tempos de CSA para hoje, quando me orgulho de comandar o F.F. Sports, é que, no Mutange, colocava dinheiro do meu bolso - deixei R$ 300 mil por lá - e tinha os projetos barrados pelo Conselho, mais especificamente pelo ex-presidente Gino César, e por vice-presidentes que não investiam um centavo no clube e ainda queriam mandar. Agora, o investimento, por enquanto, é muito maior do que o lucro, mas confio nos talentos do futebol alagoano e espero conseguir bons resultados. Pelo menos, no F.F. Sports eu pago a conta e posso tomar as decisões", declarou.
Ferro lembrou que os clubes só vão colher os frutos das divisões de base se investirem num projeto sério. "É um trabalho longo e dispendioso. Por mês, gasto cerca de R$ 10 mil com o F.F. Sports. CRB e CSA não fazem esse investimento. É preciso dar condições de trabalho aos meninos, com acompanhamento médico, nutricional e psicológico. Os nossos grandes clubes, muitas vezes, não conseguem nem bancar o lanche dos atletas das categorias inferiores. É difícil falar em divisões de base dessa forma. Estamos observando destaques de Alagoas nessa peneira de Ipioca, e não há um representante de CRB e CSA", criticou.
O ex-dirigente do Azulão destacou a qualidade dos jogadores nordestinos. "Não é à toa que os grandes clubes estão vindo buscar garotos em Alagoas. Temos muitos talentos por aqui. O Nordeste é um celeiro impressionante. Já acompanhei "peneirões" em vários lugares do Brasil e não vi tantos talentos como os revelados na nossa região", destacou o empresário, que está montando um escritório em Porto Alegre para facilitar o intercâmbio com os grandes clubes do País. "Hoje negocio diretamente com clubes como Inter, Ceará, Náutico e Nacional, da Ilha da Madeira, de Portugal. Para diminuir essa distância com os grandes centros, estou me mudando agora para o Rio Grande do Sul", revelou.

Azulão gasta R$ 3 mil com a base

O CSA passa por um processo de reestruturação das suas divisões de base. Com a queda do clube para a Segunda Divisão do Alagoano, os dirigentes tiveram dificuldades até para motivar as revelações do clube. Sem um calendário adequado, o Azulão faz amistosos para buscar talentos nos adversários.
Atualmente, o vice-social Hugo Moura está à frente dos projetos ligados às categorias inferiores do clube. "Acumulei, de forma interina, o cargo que era do Luciano Lessa. O novo vice de futebol amador deve ser confirmado nos próximos dias, e o nome que está em pauta é o do Eugênio dos Santos", informou Hugo.
O clube mantém em atividade os times sub-15, sub-16 e sub-18. "Tivemos dificuldades financeiras porque a parte profissional do CSA parou no primeiro semestre. Sem o carro-chefe, é difícil arrecadar para a base. Hoje não temos a concentração para os garotos, e eles fazem as refeições em casa. Apesar disso, temos equipes fortes, como o nosso sub-18. O Lino (técnico do profissional) também está motivando a garotada dando oportunidade a jovens, com nos casos do Staney, do Wellington e do Washington, que já foram profissionalizados", informou Hugo, que não gosta de trabalhar com "peneirões".
"Hoje não fazemos esse tipo de observação no CSA. Fazer peneira é mexer com sonhos. É complicado você tirar dois garotos entre cem. No Mutange, realizamos amistosos contra várias equipes do Estado e, assim, observamos jogadores. Se um titular de um adversário for melhor do que o nosso reserva, vamos conversar com os dirigentes de lá para tentar aproveitá-lo", explicou o dirigente.
De acordo com Hugo, o CSA gasta em torno de R$ 3 mil com a base. "Gostaríamos até que empresários nos ajudassem a aperfeiçoar esse projeto. Temos o apoio de dirigentes, da Compneus e da Tchuck Jhones, mas ainda não é o ideal. Atualmente, nós trabalhamos com cerca de 80 garotos e temos bons resultados na base. Muita gente critica o nosso trabalho sem conhecer o esforço que fazemos. Todos no Estado sabem do potencial que o CSA tem para revelar grandes jogadores para o futebol brasileiro", argumentou o dirigente, que também cuida da escolinha do clube. "Fazemos um bom trabalho por lá também e cobramos uma mensalidade de apenas R$ 25,00", completou.

Corinthians-AL confia na força de sua estrutura

O Corinthians Alagoano tem o foco de suas atividades nas divisões de base. Sem contar com uma grande torcida para gerar receita e longe de patrocinadores poderosos, o Tricolor vive da venda de jovens talentos. Para se destacar no mercado, o clube oferece uma boa estrutura e um histórico de resultados expressivos nas categorias inferiores. Coordenador das Divisões de Base do Corinthians, Eduardo Neto garante que o Tricolor não deve nada aos gigantes do futebol nacional.
"Esse investimento é o que nos mantém. Por isso, o Corinthians faz peneiras em várias cidades do Brasil para buscar talentos. Já observei jogadores do Piauí ao Paraná, passando por São Paulo e outros centros importantes. O clube investe, por mês, para manter sua grande estrutura, entre R$ 50 mil e R$ 70 mil", explicou o dirigente.
Eduardo disse não se preocupar com a "invasão" de olheiros de outros estados. "Nosso trabalho não é afetado por isso. Há muitos agentes Fifa que vêm buscar garotos e usam os nomes de grandes clubes para levar mais meninos às peneiras. No Corinthians, temos nossas metas de trabalho, e elas estão sendo cumpridas. Este mês, por exemplo, fizemos uma peneira com 300 garotos e aprovamos dois", informou o coordenador, que trabalha há 12 anos no clube e se orgulha de ter ajudado a revelar o jogador mais valorizado da história do futebol alagoano.
"Lembro que fui observar alguns jogadores no CRB em 1999 e achei o zagueiro Pepe, hoje no Real Madrid. O jogador foi trabalhado na base do Corinthians, se destacou, foi para Portugal e depois para o futebol espanhol", disse.

Um convite para o boleiro ficar

O Corinthians Alagoano conta hoje com sete campos de treinamentos para a base e tem em sua equipe de trabalho médicos, fisiologistas, fisioterapeutas, psicólogos, assistentes sociais e profissionais diretamente ligados ao futebol.
"Um garoto bom de bola de Alagoas não precisa deixar a família aos 13 ou 14 anos para tentar a sorte nos grandes centros. No Corinthians, damos toda a estrutura para os talentos do Estado desenvolverem seu futebol e, o que é melhor, sem deixarem suas casas. Os pais precisam saber que não é fácil para ninguém sair de seu ambiente. Esse problema se multiplica por cem quando um adolescente perde esse contato familiar. Por mais que os profissionais de grandes clubes sejam qualificados e bem intencionados, é impossível dar atenção especial a todos os garotos da base", afirmou.
Eduardo também garantiu que o Corinthians tem a preocupação de formar cidadãos dentro do clube. "Isso é fundamental para quem trabalha com a base. Apenas 10% dos jogadores das categorias inferiores chegam ao profissional. Por isso, orientamos os garotos a estudarem e cobramos até frequência no colégio".

ASA inicia projeto ousado na base

 Dos quatro principais clubes de Alagoas, o ASA é o que faz o trabalho mais recente nas categorias de base. Até o ano passado, o Alvinegro trabalhava apenas com os juniores, mas, com a ascensão à Série B do Brasileiro, ampliou seus horizontes e colocou em prática um projeto que data de 2008.
"O ASA dá os primeiros passos na base, mas com consistência. A diretoria traçou planos há dois anos, não pôde executá-los em 2009, mas, este ano, decidiu formar jogadores em três categorias: sub-13, sub-15 e sub-18", informou o assessor de imprensa do clube, Igor Castro.
Em sua primeira participação no Campeonato Alagoano Sub-15, o ASA ficou na segunda colocação e revelou dois jogadores de muito talento. "Esse bom resultado projetou nossa base, tanto que o atacante Williams foi para o Inter, e o volante João está treinando hoje no Atlético-MG. Isso mostra a seriedade do nosso trabalho, que é comandado pelo vice de futebol amador, Moisés Machado, e o coordenador das Divisões de Base, Gilvan do Carmo", explicou Igor.
O ASA já dispõe de uma concentração para suas revelações e promete melhorar a estrutura a curto prazo. Segundo o assessor de imprensa, o clube vai contratar um psicólogo e um assistente social em janeiro e está fechando parceria com um grupo de investidores para iniciar um projeto mais ousado. "Doze pessoas influentes de Arapiraca devem investir pesado na base do ASA. O objetivo é construir um Centro de Treinamento entre 2011 e 2012 para dar totais condições para o clube revelar novos talentos. Esse grupo terá um percentual na futura negociação de atletas, mas o ASA, que irá projetá-los, ainda terá a maior participação nos lucros. O terreno para a construção desse CT já foi até comprado", revelou Igor.
A diretoria alvinegra ainda comemora a negociação do atacante Júnior Viçosa, que passou pelo time de juniores do clube, foi profissionalizado no ASA e se transferiu para o Grêmio no mês passado. Se, ao término do empréstimo, o Tricolor Gaúcho exercer o direito de compra, Viçosa será o jogador mais caro já negociado diretamente do futebol alagoano para um grande centro. O JORNAL apurou que os valores se aproximam de R$ 1,5 milhão.
"Essa negociação do Viçosa abre muitas portas para o ASA e também mostra aos talentos de Alagoas que o clube é uma excelente vitrine. Com a boa campanha que fazemos na Série B, a tendência é que revelemos outros jogadores de alto nível para o futebol nacional", disse Igor.

O complicado momento da despedida

O momento mais difícil para os jovens que se aventuram no futebol é o da despedida. Adolescentes ainda com jeito de meninos deixam suas famílias para tentar a sorte em grandes clubes, sabendo que, para sobreviver da arte de domar a bola, precisam ter força de vontade e uma grande capacidade de superar seus limites.
Há quem diga que é fácil a vida de boleiro, que jogar futebol é uma diversão para os profissionais, mas esses, atestam os jogadores, conhecem pouco sobre os caminhos incertos do esporte. Além de bons de bola, os meninos precisam amadurecer rápido demais, queimando etapas da juventude e sendo submetidos a uma carga emocional bem superior a de outras profissões. De cem garotos que iniciam o trabalho na categoria sub-13 de um grande clube, apenas dois cumprem todo o ciclo e chegam ao time profissional.
O lado romântico do futebol, que aparece todos os dias nos jornais e revistas especializados, esconde a sombra das chuteiras. "Não é um meio de vida tranquilo, como as pessoas pensam. O jogador abre mão de muita coisa para seguir a carreira. A família fica distante, e um garoto precisa tomar decisões sérias sozinho. No futebol, os atletas são tratados muitas vezes como mercadorias. Enquanto estiverem em boas condições, serão valorizados. Se o prazo de validade estiver para acabar, eles serão descartados. Nesse caminho é importante para o jovem da base ou o profissional se cercar de pessoas honestas, porque há muitos aproveitadores no meio", declarou o ex-jogador de CRB e CSA Toninho.
O fim de qualquer "peneirão" traz consigo poucos sorrisos. No trabalho acompanhado por O JORNAL em Ipioca, no dia 22 de setembro, apenas quatro dos 300 garotos inscritos passaram no teste.
"Foram aprovados pelo Vitória três jogadores do Villa Real: o lateral-direito Eduardo Augusto, nascido em 96, e os volantes Claudevan Júnior, de 97, e Charles Henrique, de 98. Claudevan, inclusive, foi muito disputado pelos olheiros que acompanharam o "peneirão". O garoto, de 13 anos, realmente impressionou. Desses jovens, o Eduardo já viajou para Salvador, e os outros dois têm passagem marcada para o próximo dia 28", explicou Marcos Bezerra, o organizador do "peneirão" de Ipioca.
"Também tivemos a aprovação do meio-campista Vitor Lins, da Assomal, pelo Bahia. A viagem dele já está confirmada para o dia 26", acrescentou Marcos.

Renegado pelo CSA, Claudevan vai para Salvador

Um dos aprovados na peneira do Vitória, Claudevan Júnior reside no Vergel do Lago e duas vezes por semana vai ao Graciliano Ramos, sede do Villa Real. Ele deu os primeiros passos no futebol jogando no CSA, mas, como seus pais não tinham condição de pagar a escolinha, vestiu uma nova camisa.
"Sou azulino, mas lá no CSA tem muita panelinha. Eu jogava bem, me destacava, mas os pais dos meninos que pagavam a escolinha pressionavam para eu sair do time. Meu pai não podia pagar a mensalidade, e fui para o Villa Real. Lá, estou treinando de graça. Estou muito feliz com essa oportunidade de ir para o Vitória. Se Deus me ajudar, tudo vai dar certo", contou o garoto, que joga com a camisa número 8. "Sei marcar e sair para o jogo. Tenho um estilo parecido com o do Vampeta, mas meu ídolo é o Willians, do Flamengo", emendou.
Claudevan Martins, pai do garoto, ainda vai buscar mais informações sobre a viagem a Salvador. "Pelo que sei, ele ficará lá no Vitória por alguns dias para avaliação. Mas vamos dar força. Queremos o melhor para o nosso filho. Neste sábado (ontem), ele ainda vai jogar no Campeonato do Sesi. Nos próximos dias, vamos ver o que é preciso providenciar para a viagem".
Fundador do Villa Real, Felipe Pereira vive a expectativa da aprovação dos garotos no Vitória. "Eles vão ser observados em Salvador por 10 a 15 dias. Esse excelente resultado no "peneirão" nos dá mais ânimo para continuar o trabalho. O Claudevan foi lapidado aqui e agora terá a chance no Vitória. Recentemente, colocamos o atacante Gustavo, de 13 anos, no Grêmio. Ele foi avaliado por um olheiro e já está treinando em Porto Alegre", comentou o treinador.

Alguns pais tentam segurar os filhos

Felipe Pereira, do Villa Real, disse que precisa convencer os pais dos atletas a liberá-los para os times de outros estados. Alguns preferem que o filho siga outros caminhos.
"Os pais, com toda a razão, ficam muito preocupados. Não é fácil deixar um filho sair de casa tão cedo; e no futebol, infelizmente, tem muita safadeza. O Gustavo, por exemplo, já pensou em voltar do Grêmio, mas a vontade de vencer foi maior, e ele acabou ficando. Mas temos casos de pais que não liberam a transferência. O nosso atacante Adriano, um dos destaques do Campeonato do Sesi, teve uma proposta de um empresário conceituado de Paulo Afonso, mas o pai não liberou. Disse que os estudos eram mais importantes. Esse tipo de atitude é comum", explicou.

Mais dois - O técnico do Flexeiras Esporte Clube, Alex Silva, informou que o zagueiro Gesão, de 16 anos, e o lateral-direito Felipe, de 15, também foram sondados pelo Vitória. "Eles vão acompanhar o desenvolvimento desses jogadores e pediram para mandarmos vídeos. Dependendo dessa evolução, os dois vão seguir para Salvador. Torço muito por eles. Só eu sei das dificuldades que enfrentamos para buscar um lugar ao sol, mas, acostumados ao sofrimento, garanto que nenhum deles terá medo de vencer", declarou Alex, que, assim como todos os jovens jogadores do Flexeiras, luta diariamente para conquistar a chance de viver apenas do seu talento.

Crédito das fotos: Marco Antônio- O JORNAL

2 comentários:

Jane disse...

Victor,
Mais uma vez, tenho que te parabenizar pelo texto. Sem entrar nas questões gramaticais, singeleza, objetividade, tão perfeitas, tenho que destacar o lado emocional. Emocionou-me a matéria. Recomendo a todos que leiam. Parabens pela competência e profissionalismo

Guilherme Lima disse...

Simplesmente maravilhoso seu artigo! Lendo ele como um todo o resumo é claro. A captação de atletas no futebol brasileiro deve mudar, se especializar, rever fluxos...para parar de perdermos tantos recursos.