sábado, 23 de outubro de 2010

Visão particular sobre Pelé

Pelé marcou 1.284 na carreira
Não vi Pelé defendendo a camisa do Santos. Com insuficientes 33 anos, só pude ouvir as lendas a seu respeito. Defensor desde cedo de todas as causas do esporte, fui apresentado aos feitos do maior atleta de todos os tempos ainda criança. Lembro-me ainda da famosa capa da Placar 1000, revista tão esperada pelos meninos que, como eu, dormiam abraçados com uma bola de futebol, mas não tinham o amor correspondido.
O Rei representava o número máximo, a maior nota já alcançada por um desportista. Quem gostava de futebol, não poderia ser indiferente a seus feitos.
Em 1990, vivi a ansiedade de assistir, ao vivo, um jogo de Pelé. Aos 50 anos, ele resolveu comemorar suas glórias ao lado da nova geração da seleção brasileira. Eu e meus amigos olhávamos a TV como se nela pudéssemos encontrar todas as respostas. Havia ainda uma perfeita combinação daquele camisa 10 com a bola. O tempo retirou parte de suas forças, da sincronia entre os movimentos e os comandos do cérebro, mas o toque mágico estava intacto. Ao longe, era impossível distinguir o número do homem.
Ouvi com atenção nos anos que se seguiram histórias inacreditáveis a respeito de Pelé. Devorei seus filmes, li longas reportagens que tentavam, em vão, explicar seu talento através da física e me impressionei quando fui apresentado aos números de sua carreira.
Para tentar decifrar os motivos do Rei talvez seja preciso juntar palavras, razão e imagens. Creio que a união perfeita desses três elementos consiga mensurar o que o eterno camisa 10 da seleção representou para o esporte.
Pelé parou guerras, fez a torcida expulsar de campo um árbitro que lhe aplicou um cartão vermelho, desafiou os limites da física com um equilíbrio sobre-humano e deu à bola em movimento as linhas mais sofisticadas da geometria. Ele deixou ainda como legado 1.284 gols, títulos definitivos, como os três mundiais conquistados com a seleção, e uma legião de fãs espalhados pelo mundo, todos ávidos por uma lembrança que os aproximasse do imortal.
Hoje, Pelé completa 70 anos. O futebol o reverencia com a ênfase dos seus tempos de glória. Nos últimos dias, a bola correu desesperada pelos campos do mundo em busca de seu toque, mas, derrotada pelos ponteiros, preferiu repousar, insana, numa rede qualquer. Ele bem que poderia ter o dom de matar o tempo no peito e, com um chapéu definitivo, encobrir a lógica perversa dos relógios.

Um comentário:

Eliane disse...

Como é bom ler seus textos. A leveza e o jogo das palavras faz a gente entrar no mundo da notícia, como um filme perfeito da vida. Parabéns