terça-feira, 23 de novembro de 2010

A arte de Jofre e o silêncio

Eder Jofre brilhou nos anos 60
Houve um tempo, não tão distante, em que um dos esportes mais atraentes do Olimpo era o pugilismo. Dois homens se enfrentavam como nas guerras, mas, guiados por regras simples, apenas aparavam arestas esportivas. Defendiam sua cidadela, sua pátria, e os vencedores exibiam o cinturão mais cobiçado do arrabalde ou dos continentes. Nesse tempo, os conquistadores em série tornavam-se referência para sua gente e carregavam pelos ringues do mundo sua bandeira como troféu.
Corria o ano de 1960. No auge da guerra fria, as nações se dividiam entre o vermelho comunista e o azul do capital. Oriente e Ocidente traçaram uma linha imaginária a partir da Europa, e alguns dissidentes, como Fidel Castro, desafiavam o império norte-americano mesmo em território hostil.
O Brasil vivia um período de efervescência política e esportiva. Dois anos antes, a seleção de Garrincha e Pelé encantara até os adversários e levantara pela primeira vez uma certa Taça Jules Rimet, na Copa da Suécia. O presidente Juscelino Kubistchek tentava transformar seu quarto ano de mandato em 40 de prosperidade e, nos ringues, um pugilista estava prestes a escrever sua história.
No dia 18 de novembro daquele ano, Eder Jofre subiu num ringue de Los Angeles, nos Estados Unidos, para enfrentar o mexicano Eloy Sanchez. Em disputa, o título mundial dos Pesos Galo. Com estilo agressivo e, ao mesmo tempo, técnico, o brasileiro golpeava como se esgrimisse. A combinação de socos com rápidos movimentos tirava as forças do oponente, e os alaridos do público multiplicavam as suas. “Uppers certeiros”, jogo de cintura e ataques precisos o ajudavam a compor o cenário. No sexto round, o silêncio se fez presente no ginásio para, segundos depois da última pancada, se transformar em gritos de vitória. Jofre derrubou o adversário e, após a tradicional contagem, ainda cansado pelo embate, viu o ringue ser invadido por seus aliados. Essa foi uma das vitórias épicas do esporte brasileiro.
O boxe era a “nobre arte” daquela década. Por seus ringues, desfilaram talentos como Rocky Marciano, Joe Louis e Sugar Ray Robinson. Aquela luta marcaria algumas gerações de apaixonados pelo esporte que envelheceram com Eder. Seus feitos não se resumem a esse desafio. Em 1962, ele unificou os cinturões batendo o irlandês Johnny Caldwelle e, em 65, conheceu sua derrota mais dolorosa, perdendo o título por pontos para o japonês “Fighting Harada”, em Tóquio, numa decisão por pontos muito contestada. O brasileiro também foi derrotado na revanche e resolveu abandonar o pugilismo aos 30 anos. Mas sua trajetória ainda guardava capítulos de glória. Em 1969, o brasileiro aumentou sua categoria e voltou ao combate. Muitos riram de sua iniciativa. A inatividade, certamente, tiraria seus estranhos poderes. Aos críticos, Jofre respondeu com incríveis 25 vitórias, que culminaram com a terceira conquista mundial, nos pesos penas, diante do gigante cubano José Legra, em 1973.
Os feitos do pugilista o colocaram no nível dos maiores desportistas de seu tempo. O boxe perdeu adeptos e a pegada a partir da década de 90. A manipulação de resultados e a debandada de patrocinadores levaram seus talentos para as arenas do vale tudo, mas sua galeria de campeões ainda deve ser lembrada com reverência por quem viu ou ouviu as histórias de seus heróis. Cinquenta anos após seu primeiro grande feito, Eder Jofre merece as homenagens e o reconhecimento de novos e antigos. Ele foi um dos atletas que honraram a pátria com a mesma coragem dos pracinhas que tomaram Monte Castelo. O silêncio o pegou em 1976, mas o velho, marcado pelas cicatrizes e as dores do boxe, ainda é capaz de emocionar um público que não o viu em ação. Salve a força desmedida do vídeo, da foto e das palavras presas nos livros.

Um comentário:

Nadia disse...

Victor, houve um tempo.... que eu ficava horas e horas assistindo as lutas, naquela TV Telefunken, preto e branco. Quanta saudade. Não perdia uma luta sequer do Eder Jofre... bons tempos. Parabéns pela matéria e por me fazer voltar no tempo.