segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A lenda de Senna

Com dores musculares, Senna lavanta a taça no Brasil em 91
É impossível não lembrar de Ayrton Senna da Silva nos dias de Grande Prêmio do Brasil. Neste ano, perto do lançamento oficial do filme sobre sua vida no País, essas memórias pedem passagem com a ênfase da década de 90.
Falar de Senna é fácil. Máximo ídolo esportivo da minha geração, ele conseguiu ser maior que a própria Fórmula 1. Seus pegas com Mansell, Prost e Piquet povoaram a infância de gente que, como eu, aprenderam a vencer vendo na pista aquele mítico McLaren número 1. Obcecado por vitórias, o brasileiro era a personificação das palavras talento e persistência.
Nas corridas, mesmo quando o carro estava bem abaixo de seus maiores rivais, Senna precisava apenas de alguns pingos de chuva para vestir sua capa e seu elmo e partir, destemido, para tirar a vitória de mãos impuras. Nas primeiras curvas, já percebíamos que o sucesso era iminente.
O piloto também incorporou como poucos atletas o ideal patriota. Num período em que manifestações ufanistas lembravam o cinza da Ditadura, ele desbravou o mundo com a bandeira nacional nas mãos e espalhou orgulho em sua nação. Valente, Senna não se intimidou com as politicagens da Federação Internacional de Automobilismo e nunca se curvou aos donos do circo. Dialogou com ótimos coadjuvantes e foi soberano num tempo em que a Fórmula 1 se consolidava como um esporte de elite e de massas.

Senna, Prost, Mansell e Piquet na década de ouro da F-1
No futuro, ao certo, quem não teve a oportunidade de acompanhar os feitos de Senna pode observar os números frios de sua carreira e considerá-lo apenas um grande campeão, como outro qualquer. Cabe a nós, privilegiados, buscar suas ultrapassagens mágicas na primeira gaveta da lembrança e, com a voz impostada, tentar explicar sua lenda. Dentre os incríveis feitos do brasileiro, destaco a primeira vitória no País. Ele já havia conquistado dois de seus três títulos mundiais, mas era desafiado pelo destino a não vencer em casa. Obstáculos improváveis o tiravam da liderança nas corridas no Brasil, talvez até para preservar a glória aos últimos capítulos.

Em 1991, Senna defendia a primeira colocação em Interlagos com grandes chances de triunfo, mas, a sete voltas do fim, o carro parecia não querer aceitar seus comandos. As marchas foram travando em sequência e, em pouco tempo, lhe restou tão-somente a sexta. Ricardo Patrese, da Williams, que estava a mais de 30 segundos do brasileiro, tirava a diferença com imensa facilidade e se aproximava em compasso de abordagem. Senna segurava o carro como se domasse um touro insano. As dores se multiplicavam pelo seu corpo e, assim como as marchas, os músculos se recusavam a responder. Para aumentar a dificuldade, a chuva decidiu cair no circuito e a sua velha Mclaren insistia em sair da pista. O piloto não aceitava.

Senna na Loutus: piloto foi maior do que a própria F-1
As voltas foram sendo vencidas com imenso esforço e, após a bandeirada final, Senna mal tinha forças para erguer a sua bandeira, símbolo máximo de suas conquistas. A imagem do ídolo no pódio, cambaleante, mas triunfal, está entre as cenas mais marcantes da história do esporte. O seu contraste veio dois anos depois, com a segunda vitória do brasileiro em Interlagos. Depois de pulverizar o favoritismo das Williams de Alain Prost e Damon Hill, Senna fechou a prova no Brasil em primeiro lugar e foi saudado, ainda na pista, por uma multidão enlouquecida. Foi o contato mais próximo do herói com seu povo nos 21 anos de sua carreira. Para fechar sua saga no País, saiu do carro ainda no meio de seus seguidores com os braços erguidos e ungiu a nação com a glória alcançada.
Um ano depois, Ayrton Senna da Silva perdeu a vida num terrível acidente no Circuito de Imola, em San Marino, mas seus feitos ganharam o poder desmedido das palavras e vão ser sempre lembrados, com nostalgia, por quem foi contemporâneo de seu tempo. A poeira dos anos não terá o salvo-conduto para apagar suas marcas no esporte, nas corridas e na memória.

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