segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A redenção do Tricolor campeão

Conca foi eleito o melhor jogador do Campeonato Brasileiro
As glórias do Fluminense são incomuns. Os momentos de euforia de sua imensa torcida são forjados pela dor. Há controvérsias inexplicáveis no atual campeão brasileiro. A imponência de sua sede contrasta com a valentia de seus atletas. Ricos não correm para o rio com tamanha sede. Nascido em berço de ouro, o Tricolor renegou o passado aristocrático para construir sua nova imagem a partir do caos.
Sem recursos, abandonado pela sorte, o escudo foi envolvido em 1999 apenas pelos afagos de seus fiéis seguidores. Humilhado, o Fluminense frequentou os piores lugares do futebol nacional. Estava exposto o desafio do destino para um clube que sempre teve a vocação de vencer.
Os clarins de sua derrota definitiva ecoaram no País. A queda para a Série C seria o último ato de uma história rica em conquistas, que parecia presa, pela eternidade, em fotografias envelhecidas. A renovação de seus seguidores parecia descartada. Afinal, quem poderia em sã consciência acompanhar aquela agonia sem desprendimento?
Acostumado com os bailes mais nobres do esporte, o Fluminense se lançou nos guetos da Terceira Divisão. Lá viu demônios, conversou demoradamente com fantasmas perdidos, mas, mesmo que em sonhos, não perdeu o caminho da volta. Ainda em 99, o clube teve suas forças renovadas para iniciar uma década de conquistas. 
Emerson marcou o gol do título nacional
 Após o caos, os tricolores uniram seus poderes. As pessoas mudam quando são cortejadas pelo fim. O Fluminense mudou. A simples disputa não mais contentava sua legião. A atração por taças era tão intensa como nos tempos em que o clube dominara o País em 70 e 84. Mas não é fácil redescobrir a glória. O processo é lento, doloroso e cruel.
Os adversários zombavam daquele escudo. As torcidas rivais viravam as costas para os atletas que defendiam aquela marca. O retorno ao convívio com os grandes precisava ter trincheiras abertas com fogo. Novos pecados seriam considerados capitais.
Aos poucos, o Fluminense foi recuperando seu prestígio. Primeiro vieram as vitórias, depois o orgulho, dois títulos cariocas e, como sinal da mudança, o troféu da Copa do Brasil, em 2007. Sim, passado o seu centenário, o Tricolor já caminhava sem ajuda e despertava, com lágrima nos olhos, novos amores.
Mas a saga ainda precisava de outras páginas de sofrimento antes de fechar aquela história. Em 2008, o Tricolor alçou um ousado voo no Continente. Fez partidas inesquecíveis pela Libertadores e, numa única competição, derrotou os soberanos da América neste início de século, São Paulo e Boca Juniors. O beijo na taça selaria o reencontro da camisa com a glória. Mas, por decisão imperial do destino, os gritos de liberdade ficaram presos naquele ano. O Fluminense perdeu a final para a LDU e fez seus seguidores reencontrarem o patriarca das tristezas esportivas. Conservador, ele é homem de gestos rudes e, sem pensar em suas atitudes, fere de lança quem vive à sua volta.
A derrota na Libertadores fez estragos em Laranjeiras. O desânimo tomou conta da velha Rua Pinheiro Machado, e aquele processo depressivo aproximou o clube do maior de seus medos: a queda.
Ainda em 2008, o Fluminense, mesmo com um forte elenco, se indispôs com o Brasileiro e quase foi rebaixado. Nas últimas rodadas, seus jogadores venceram o perigo iminente e, ao menos, mantiveram o time na elite. No ano seguinte, o caos reencontrou o clube. Disputas internas racharam a cúpula tricolor. Enfraquecido, o escudo se tornou o alvo predileto dos adversários. Quase todos se aproveitaram de suas fraquezas. A algazarra foi de tamanha intensidade que, mais uma vez, as portas da Série B foram abertas, sem cerimônias, para o Fluminense. 
Orgulhosa, torcida do Flu mostra os anos dos três títulos nacionais
Os números frios zombavam do clube. A cada jornada, os atletas eram lembrados pela matemática que o esforço seria inglório. O caos parecia ser bem mais forte do que a redenção. Parecia. Ungidos por um óleo santo, 11 jogadores encontraram elmos e escudos em Laranjeiras. Naquele momento, eles nem sabiam como usar e muito menos como agradecer o estranho presente. A cada partida, a corda insensível do carrasco parecia mais próxima. O menor sinal de fraqueza seria o suficiente para a execução.
Vieram as jornadas e, com elas, estranhas vitórias. O Fluminense quase rebaixado foi golpeando os líderes do campeonato como se fossem apenas os moinhos de Cervantes. Como seria capaz de obter tal feito um time tão acostumado a perder naquele campeonato? O tempo corria e se tornava aliado do clube. Na sequência imbatível, o Tricolor venceu Atlético-MG, Cruzeiro, Palmeiras, Atlético-PR, Sport e Vitória. A impressionante série também coincidia com a conquista da vaga na decisão da Sul-Americana. Uma vitória alimentava cuidadosamente a outra, e a última provação foi a perda do título internacional, outra vez, para a impiedosa LDU. Mas a legião não perdeu o foco. Os guerreiros foram colocados nos braços no momento mais difícil da jornada e mantiveram a altivez na batalha final. Contra todos no Paraná, o Fluminense arrancou um empate diante do Coritiba, venceu uma guerra e, já na história, abriu de vez o caminho de volta para a glória.
A conquista definitiva do Nacional deste ano foi forjada no aço de 2009. Incansável, o Tricolor investiu, trouxe cobiçados heróis deste e de outros continentes e manteve a lenda dos guerreiros. Em pouco tempo, seu prestígio estava recuperado e a alma de seus atletas entregue aos desejos mais puros da taça. Não foi fácil a retomada. A confiança dos seguidores oscilava de acordo com o humor da tabela. Em alguns momentos, como na perda do Maracanã e na impressionante serie de lesões de seus jogadores, o Tricolor chegou a pensar na possibilidade de adiar o reencontro.
Muricy Ramalho foi o grande comandante da jornada tricolor
 O comandante Muricy Ramalho não se deu por vencido. Reagrupou a tropa e abriu no peito do herói Conca a marca da glória. Ele foi o escolhido para carregar aquele tão imponente estandarte. Singrou os mares do País e, mesmo em águas revoltas, fincou a bandeira de três cores nos navios derrotados. Com a alma castelhana, o pequeno líder se transformou no resumo da conquista. O Fluminense venceu adversários aos pares perto do fim da jornada e, domingo, com um gol máximo do valente Emerson, libertou os gritos insanos de vitória. Depois de tanto sofrimento, os guerreiros foram levados, em glória, para o início de tudo: as Laranjeiras. Por lá, prometem reinar com a sabedoria de quem conhece, como poucos, as sete faces do esporte.
Crédito das fotos: Ricardo Ayres - Photocamera

3 comentários:

Rita disse...

Valeu, Victor. Parabéns pela matéria

Salerni disse...

Emocionante o texto. Parabéns, Victor. Você é o homem das palavras certas nos momentos certos.

Marcelo Araújo disse...

ParabÉNS PELA COBERTURA DO TÍTULO DO FLUZÃO. MUITO BOM O BLOG.