quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Dida, os atos da vida de um craque

O alagoano Dida foi o grande ídolo de Zico
A bola passeava nos seus pés apaixonada. No momento do toque de gênio sobre a pelota em velocidade havia uma magia nunca vista antes em Alagoas. No gramado das tardes ensolaradas do Mutange ficaram os passos do seu talento e os seus gritos definitivos de conquista. As suas arrancadas fulminantes rumo ao gol foram eternizadas na memória de um público fiel. Correram os anos, e, nas mudanças do destino, o gol não era mais a meta. Tudo passou tristemente com o tempo e as suas vontades. Hoje, o craque Edvaldo Alves de Santa Rosa, eternizado como Dida, que encantou multidões com um talento incomum nas décadas de 50 e 60, transformou-se em páginas envelhecidas de um passado belíssimo e, ao mesmo tempo, cruel.
A última caminhada em direção aos vestiários foi o início de um processo de quase morte. As pernas, repentinamente, perderam o sentido e o valor. O relógio estancou, e o homem, vencido pelos ponteiros, virou a sombra do que foi. Nas passadas indecisas rumo ao vestiário final, Dida viu a sua carreira ser dramatizada em atos de uma ópera e, com serenidade, deixou-se embarcar nas lembranças.

Primeiro ato - A primeira recordação do craque o transportou para a Praça da Cadeia de Maceió, onde Dida, um menino magro que sonhava em jogar no Flamengo, fazia estripulias nas peladas. Diziam, na época, que os presos disputavam a tapas um lugar nas celas que ficavam no lado direito da prisão, somente para acompanhar aquele garoto habilidoso desmontar os adversários. Dida encantava a plateia e vencia os pobres oponentes com a simplicidade dos escolhidos. Os marcadores do craque naqueles tempos ainda hoje o procuram em terríveis pesadelos.

Segundo ato - A máquina do tempo disparou na retina do jogador, já um pouco umedecida pelas lágrimas da saudade, e parou num certo treino no Mutange. Foi nesse cenário que o futebol resolveu acolher o menino e o seu jeito atrevido de jogar. Vindo do modesto América de Maceió, Dida treinou entre os profissionais do CSA e deslumbrou a comissão técnica e os dirigentes, que, perplexos, o contrataram imediatamente.

Terceiro ato - Depois vieram as glórias, e os deuses do futebol fizeram com que Dida fosse parar no Flamengo, a sua grande paixão. No Rubro-Negro carioca, o alagoano tímido, mas, ao mesmo tempo, ousado com a bola, foi proclamado rei. Um dos seus súditos fiéis foi um menino chamado Arthur, que o mundo conheceria mais tarde como Zico.
A partir da sua chegada ao Flamengo, as cenas da vida do boleiro correram, voaram à luz do tempo, e o craque voltou ao dia da sua despedida, no Atlético Junior, de Barranquilha, na Colômbia. Dida ouviu o barulho da torcida deixando o estádio e abriu, devagar, a porta do vestiário. Começou, então, o ritual de passagem que todo jogador um dia precisa enfrentar. A camisa pesada de suor foi retirada e estendida ao lado do craque. As chuteiras receberam uma atenção especial, afinal de contas, foram elas que suportaram anos a fio de batalhas no mundo da bola. Quando o ritual foi finalmente encerrado, o craque dirigiu-se ao chuveiro e começou a sentir uma grande mudança em sua trajetória. O ídolo das massas se aposentava, e a sua vida, a partir daquele momento, seria apenas marcada pelas lembranças de glória.
Com a aposentadoria, Dida transformou-se, outra vez, em Edvaldo de Santa Rosa. O homem perdeu um pouco da alegria de boleiro: as injustiças do futebol e da vida acabaram deixando-o amargurado e introspectivo. Os seus poderes de craque foram exterminados pelo tempo, que seguiu para Edvaldo até o dia 17 de setembro de 2002, quando o seu velho coração, ainda rubro-negro, desistiu de bater.

Craque só foi substituído por Pelé

Desfecho - Dida marcou, com gols e jogadas de rara beleza, uma geração formada por azulinos, rubro-negros e amantes do jogo de bola. No Flamengo, o craque mostrou a imponência do seu futebol para o País, conquistou títulos aos pares e foi para a seleção brasileira, onde perdeu a vaga entre os titulares somente para Pelé.
No CSA, ele provou aos seus descrentes conterrâneos que Alagoas poderia ter representantes da arte de conduzir a bola nos melhores "teatros" do futebol mundial. Assim, esse craque – de certa forma – contribuiu para amenizar a falta de confiança que as pessoas do Estado tinham contra elas mesmas. Nesse momento, Dida deixou de ser apenas um jogador como tantos outros, transformando-se numa lenda incontestável, que conseguiu, apenas com gols, libertar o seu povo do conformismo.

Irmão conta as histórias do craque

O tempo não foi perverso apenas com Dida. Ele tirou a oportunidade de muitas gerações de aplaudir o talento do melhor jogador de futebol de Alagoas. Os feitos do craque são contados hoje, com nostalgia, apenas por quem teve o privilégio de viver o seu apogeu. A memória do boleiro foi preservada por seu irmão, Edson Santa Rosa, um exímio contador de histórias.
“Acompanhei toda a trajetória do meu irmão e tive a chance de jogar com ele. O Dida era um jogador fantástico, que partia pra cima dos defensores sem receio e tinha uma impressionante capacidade de marcar gols. Ele era azulino e sempre visitava o clube quando vinha a Maceió, mas, infelizmente, é pouco lembrado no Mutange. A memória do futebol é curta, e as pessoas vão esquecendo os craques com o passar do tempo”, disse Edson.
O irmão de Dida reclama da falta de reconhecimento ao craque em sua terra natal. “O Dida abriu as portas para toda essa nova geração do futebol do Estado. Alagoano e tímido, ele foi discriminado quando chegou ao Rio de Janeiro e, para completar, ainda foi para o Flamengo doente, com icterícia. Mas o clube bancou o tratamento, conseguiu curá-lo, e ele começou a jogar no time de aspirantes. Depois, se destacou e já começou a ser utilizado entre os profissionais. Com o seu talento impressionante, quebrou as barreiras e venceu no clube, conquistando títulos, uma vaga na seleção e muitos fãs”, lembrou Santa Rosa.
“Por tudo isso acho que ele deveria ser mais homenageado em Alagoas. Poderia ter o seu nome numa avenida, numa rua ou numa grande praça esportiva. O Museu dos Esportes é uma lembrança particular do Lauthenay Perdigão, que conhecia o Dida, sabe do seu valor e mantém viva a sua história. No Rio, uma neta minha disse que viu um bandeirão do Flamengo com o rosto do Dida. Esse tipo de homenagem deixa a família feliz, porque o legado do craque pode ser passado para as gerações que não o viram em campo. Ele morreu há sete anos e um mês e até hoje ainda continuo mandando celebrar missas para o meu irmão. Não esquecemos o jogador e o homem exemplar”, completou.


Amor ao Rubro-Negro
 
Orgulho de ser rubro-negro - Dida chegou ao time titular do Flamengo em 1955 para substituir o craque Evaristo de Macedo, que estava indo jogar na Europa. A sua trajetória na Gávea foi brilhante: conquistou os títulos cariocas de 1954, 55 e 63 e, com gols e jogadas mágicas, encantou a exigente nação rubro-negra.
Em 54, ele estreou no profissional contra o Vasco, o Rubro-Negro venceu por 2 x 1, mas o alagoano acabou voltando aos aspirantes. Negociado com o Real Madrid, Evaristo deixou a Gávea e abriu espaço para Dida na equipe principal. “O Dida ficou com a camisa 10, que foi minha. Fui para a Europa e ele me sucedeu no Flamengo”, comentou Evaristo.
O irmão de Dida, Edson Santa Rosa, lembra que a família esperava até seis semanas para acompanhar as jogadas do craque no cinema. “Era um acontecimento. Assistíamos aos melhores momentos das partidas do Flamengo bem depois que elas eram realizadas. Naquela época existia o Canal 100, que destacava os lances dos jogos e realçava o talento do meu irmão. Um jogo que não esqueço foi uma vitória do Flamengo sobre o Vasco, por 4 x 1, com três gols do Dida. Ele deu um drible no Bellini, que tirou o zagueiro do prumo. Foi um momento de glória para ele”, recorda.
Com a camisa rubro-negra, o alagoano disputou 357 partidas e marcou 264 gols. Ele é o segundo maior artilheiro da história do clube, perdendo apenas para Zico. “O Zico foi o sucessor do Dida e, curiosamente, ele diz que o meu irmão foi o seu grande ídolo no futebol. Muita gente, na Gávea, diz que o meu irmão está entre os cinco maiores jogadores da história do Flamengo, e é verdade. Talento não faltava”, destacou Edson.

Desrespeito após a morte - Em 2004, uma história triste sobre o túmulo de Dida chegou a Alagoas. Os seus ossos seriam removidos da sepultura no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, por falta de pagamento. "Foi uma passagem realmente lamentável. O Flamengo sempre ajudou o meu irmão, o projetou no futebol, o ajudou quando estava doente na década de 80 e até o final da sua vida. Mas o clube tem os seus problemas de organização, e o pagamento da sepultura atrasou. Iriam remover os ossos do Dida e colocariam no lugar os de um traficante. Felizmente, um torcedor do Fluminense, que não quis se identificar, fez o alerta, as medidas foram tomadas, e hoje os torcedores podem visitar o túmulo no São João Batista. Ainda teve gente que quis se aproveitar politicamente da situação, dizendo que iria trazer os ossos do meu irmão para Alagoas, mas, felizmente, deixamos para trás essa passagem triste", revelou Edson Santa Rosa.

Recado às novas gerações
- Para situar as novas gerações, Edson Santa Rosa compara Dida aos craques Kaká e Romário. “Ele tinha a habilidade do Kaká e, observando direitinho, dava dribles parecidos com os do jogador do Real Madrid e da seleção brasileira. Além disso, tinha o oportunismo de Romário. Era um jogador extraordinário”, destaca o irmão.
O jornalista e historiador Lauthenay Perdigão acrescenta que o craque driblava até mais do que o Kaká. “Ele tinha uma facilidade impressionante de passar pelos adversários. O Kaká é mortal nas arrancadas, mas o Dida sabia envolver os marcadores até com mais facilidade. O maior problema dele era o porte físico. Franzino, era alvo fácil para os zagueiros e laterais. Em 1956, por exemplo, ele não ganhou mais projeção na seleção brasileira por causa de uma dessas lesões”, completa.

Decepção - Edson revelou uma mágoa do alagoano com o craque Leônidas da Silva. “O Dida era o maior fã do Leônidas. No futebol de botão, o seu jogador de destaque era o craque do Flamengo. Mas, tempos depois, o Leônidas fez críticas pesadas ao meu irmão. Sem motivo, disse, na rádio Pan-Americana, que o Dida não deveria ser titular do Flamengo. Isso o deixou muito triste. Foi uma decepção grande”, revelou Edson.
Didi, Vavá, Dida e Zagallo na seleção brasileira

Alegrias e tristezas na seleção - A seleção brasileira foi motivo de orgulho e desilusão para Dida. O craque disputou oito jogos com a camisa do escrete: venceu sete, empatou um e marcou cinco gols. Mas a sua passagem pelo famoso time de 1958 foi tumultuada.
De acordo com Pepe, ex-jogador do Santos, antes da Copa do Mundo, Pelé sofreu uma lesão num amistoso contra o Corinthians e não podia estrear contra a Áustria. Edson Santa Rosa disse que a história não foi bem assim. “A determinação era para que apenas um jogador por posição fosse escalado e, pelo o que eu sei, o Dida barrou o Pelé no início da Copa”, afirmou Edson.
“Depois, o meu irmão ficou abalado por causa da forma como ele foi sacado do time pelo técnico Vicente Feola. Foram convocados 22 jogadores para o Mundial de 1958, na Suécia, sendo dois para cada posição, mas poderia haver uma adaptação para o Dida jogar com o Pelé. O Brasil estreou na Copa contra a Áustria e venceu por 3 x 0, com dois gols de Mazzola e um de Nilton Santos. O meu irmão perdeu um gol, mas isso não atrapalhou a seleção, já que, depois, até o grande jogador Didi declarou que ele foi fundamental na partida porque abriu espaços na defesa adversária. Infelizmente, Dida não foi escalado para o jogo seguinte, contra a Inglaterra, perdendo a vaga para Vavá”, lembrou Edson Santa Rosa.
“O jogo com os ingleses terminou 0 x 0, e a torcida do Flamengo, que sempre foi fanática, fez muita pressão para o Dida jogar contra a União Soviética. Na partida contra a Inglaterra, Feola escalou os centroavantes Mazzola e Vavá e também abriu precedente para colocar em campo os dois meias que tinha no elenco: Pelé e Dida, que tinham um talento fora do comum. Dessa forma, ele poderia ter sacado o Vavá e fechado o setor ofensivo com Pelé, Dida e Garrincha. Com esses três jogadores em campo, o título poderia vir até com mais facilidade”, emendou.

Lauthenay diz que a imprensa queria Dida em 58

 De acordo com o jornalista e historiador Lauthenay Perdigão, a imprensa queria ver o trio de craques na seleção. “Muita gente da imprensa defendia que o Dida, o Pelé e o Garrincha jogassem juntos. Depois, na Copa de 70, Zagallo escalou a seleção com jogadores da mesma posição, mas com grande habilidade, como Rivellino, Pelé e Tostão. Em 58, o técnico Feola era mais conservador e dizia que cada atleta deveria atuar em sua posição. Durante toda a preparação para o Mundial da Suécia, Dida era titular, e Pelé, então com 17 anos, entrava depois. Mas, já numa série de amistosos antes da Copa, na Itália, o alagoano se machucou e até jogou contra a Áustria contundido, o que o prejudicou. Tempos depois, o Didi me disse que falava para o Dida ter cuidado com aquela lesão porque ele dificilmente recuperaria a posição se o Pelé entrasse na equipe”, contou Lauthenay.
Depois da Copa, Dida ficou abalado emocionalmente e demorou para se recuperar. “Ele passou uns seis meses para voltar a ser o jogador que foi convocado para a seleção”, ressaltou Edson. Os anos correram, a seleção ficou para trás, e Dida encerrou a carreira em 1968. “Depois disso, tudo se tornou mais difícil. Ele sentiu muito quando deixou o futebol. Acho que isso acontece com todos os jogadores, mas é pior para os grandes ídolos. A imprensa deixa de noticiar os seus feitos, e ele não ouve mais o grito da massa no estádio. Fica um vazio difícil de ser preenchido”, enfatizou o irmão do craque, que também tinha um grande talento para jogar futebol, mas não investiu na carreira profissional devido a uma miopia aguda.

Treinador do CRB por 15 dias
- Dida também foi treinador de futebol. Ele iniciou a carreira no Ferroviário, de Alagoas, em 1971, e conquistou o vice-campeonato estadual; depois, chegou a treinar o CRB. “O futebol tem coisas engraçadas. Ídolo do CSA, Dida foi convidado para treinar o maior rival, entre 71 e 72, mas ficou apenas 15 dias na Pajuçara. Um diretor regatiano o contratou, e outro o demitiu por causa da rivalidade. Nesse período, ele ainda comandou o CRB num clássico contra o CSA, que terminou empatado em 1 x 1. Depois, Dida ainda trabalhou no Tupi, de Minas Gerais, no Fluminense de Feira e no Taguatinga, de Brasília. Muito temperamental, ele ficou irritado com a vida de técnico e deixou a carreira ainda na década de 70”, lembrou Edson Santa Rosa.
O jornalista e historiador Lauthenay Perdigão também recorda que Dida treinou o CSA e trouxe até o meio-campista Carlinhos, do Flamengo, para jogar no Ferroviário. “Ele fez uma boa campanha com o antigo Ferroviário e conseguiu convencer o Carlinhos a jogar no Campeonato Alagoano. Foi um período marcante para o nosso futebol”.

Revelações - A partir da década de 80, o alagoano começou a trabalhar como observador do Flamengo e ajudou o clube da Gávea a conquistar o Brasileiro de 1992. “Passaram pela mão do Dida jogadores como Marcelinho Carioca, Djalminha, Marquinhos e Júnior Baiano, que depois foram muito importantes na conquista de 1992”, emendou.
Aloísio Chulapa também foi “descoberto” pelo observador. “O Dida sempre fazia muitos elogios ao Aloísio, que tinha uma boa colocação na área, faro de gol e um porte físico privilegiado. Não deu outra: Aloísio conseguiu grande destaque no futebol. O Dida sabia das coisas”, comentou o jornalista e historiador Lauthenay Perdigão.
CSA em 1973 (Amistoso)- Em pé: Mendes, Dida, Pires, Zé Leite. Zé Preta e Jaminho;
Agachados: Castanha (massagista), Garrincha, Dida, Giraldo, Soareste e Misso.

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