terça-feira, 5 de abril de 2011

Crônica - Um gol para sempre


CSA venceu o CRB no clássico de sábado e segue na elite
O clássico entre CRB e CSA honrou as tradições das duas camisas. Ao contrário do que muitos temiam, não houve um acerto entre os jogadores para que o Azulão chegasse à vitória com facilidade. A possibilidade iminente de rebaixamento do CSA aguçou a velha rivalidade e, pelo segundo tempo que o Galo fez, garanto a você, caro leitor, que a partida valia muito para os dois lados do estádio.
Na descrição do jogo de sábado, posso perfeitamente passar pelo primeiro tempo sem muitos detalhes, até porque nem eles pareciam interessados no clássico. Para realçar essas palavras, basta dizer que o CRB não acertou um chute vadio no gol de Anderson Paraíba. O goleiro do CSA poderia colocar uma rede embaixo das traves e ler todo O JORNAL do dia que, mesmo assim, sua presença não seria notada. Pouco inspirado, o Azulão vivia dos lampejos de Adriano Silva, o melhor em campo na etapa inicial. Ele puxou ataques mais audaciosos de sua equipe e fez Juliano trabalhar. Aos 44´, desferiu um golpe quase mortal da entrada da área e viu a bola atingir o travessão vermelho e branco.
Taticamente, os times estavam bloqueados. O CRB jogava num 4-4-2 clássico, com os dois laterais guardando posição. O CSA havia recuado o volante Dinho e atuava no esquema 3-5-2, dando liberdade para as investidas dos alas. Sem mobilidade dos ataques, as defesas levavam vantagem no confronto. Bastava pressionar um pouco para desarmar quem se aventurava no campo ofensivo. O Azulão rondou mais a área adversária, mas só assustou em jogadas trabalhadas aos 20´, quando Tico Mineiro escorou, com precisão, um cruzamento de Dio, pela esquerda, e obrigou Juliano a fazer sua primeira grande defesa.

Agonia do CSA acabou apenas aos 44 minutos

No segundo tempo, a postura das equipes mudou, e o clássico ganhou imponência. O drama do CSA aumentava a cada minuto, e a audácia do adversário também contribuiu para isso. O CRB deixou a postura passiva no vestiário e partiu para decidir o duelo. As jogadas começaram a surgir aos pares e os atacantes pareciam ter feito uma aposta para saber quem desperdiçaria a oportunidade mais clara. Fernando Sá era o homem mais lúcido do ataque. Ele executava bem os movimentos, mas falhava no desfecho. De frente para o gol, o arremate saía impreciso. Aos 27 minutos do segundo tempo, após uma jogada pela esquerda de Fernando, a zaga do CSA furou e a bola sobrou livre para o atacante Luiz André dentro da pequena área. Desatento, o atacante se atrapalhou e praticamente recuou para o goleiro Anderson Paraíba.
A torcida alvirrubra queria a cabeça do CSA numa bandeja de prata e empurrava o time para frente. Nos contragolpes, o Azulão também criava chances, mas ainda parava em Juliano. O goleiro do CRB cortava cruzamentos, parecia aumentar seus braços para salvar bolas que tinham o ângulo como alvo e, inspirado, fechava a meta também por baixo. O arqueiro não estava mesmo disposto a presenciar a festa do rival. “Que paguem pelos seus pecados!”, deveria estar pensando.
O CSA sentia o peso do tempo e, como o gol não vinha, também tirava a agonia para dançar. O CRB passou a tomar conta do jogo a partir dos 25´ e, depois da troca de Adriano Silva por Alisson, o adversário perdeu ainda mais poder ofensivo. Apenas um fato novo recolocaria o Azulão na partida. O ator principal dessa cena foi o meio-campista Daniel. Ele já havia recebido cartão amarelo e acertou um chute por trás em Alisson. A expulsão do jogador alvirrubro aos 36´ manteve as frágeis esperanças da torcida azul. Foram poucos os que deixaram o Rei Pelé antes dos 40 minutos. Mas, mesmo em vantagem numérica, o CSA não coordenava suas ações. Os passes errados se multiplicavam e o CRB, em nenhum momento, se sentiu inferiorizado.
Eu assistia ao jogo da tribuna de imprensa e desci para ver o desfecho mais perto dos protagonistas. Passei pelo banco de reservas do Azulão e respondi duas perguntas aflitas: que o placar do jogo Santa Rita e CSE continuava preso no 0 x 0 e que já passavam dos 42 minutos do clássico. Segui meu caminho até parar atrás do gol do CRB. Se o improvável acontecesse, o cenário escolhido seria aquele. Nas arquibancadas azuis, o rosto fechado dos torcedores anunciava um quase luto. Depois de dois rebaixamentos, era difícil enxergar a palavra esperança no lado direito do Estádio Rei Pelé.
Um jogador em especial me chamava a atenção naquela partida. Criado no Mutange, o jovem Washington entrara em campo no lugar de Josuel na segunda etapa sentido a dor dos azulinos. Ele vira de perto o inferno da Segunda Divisão e, certamente, guardara cada risada dos adversários de seu clube nos últimos anos. Essa sintonia com o drama fez o menino errar mais do que o costume. Não havia passe que não encontrasse uma meia vermelha na trajetória. Não havia jogada que fosse concluída pelo jovem atacante. A bola parecia derreter sua chuteira e, pior, sua alma.
Mas ele foi o eleito. Aos 44´20, Washington recebeu a bola de costas para os marcadores e escorregou. A defesa vermelha, por um instante, conteve a investida, mas, mesmo no chão, quase pisado pelos adversários, o jogador fez pressão sobre Kaká. O lateral Rafael ganhou a dividida e disparou em direção à linha de fundo. Washington, já refeito da queda, se posicionou na zona de arremate e, friamente, preparou o chute. O lateral tocou para trás, surpreendendo os marcadores, que esperavam um cruzamento pelo alto, e achou o pé direito do menino. Com convicção, Washington desferiu um golpe perfeito na bola, que ganhou altura, se livrou das mãos e do corpo do goleiro Juliano e, aos 44´37, encontrou seu destino na indefesa rede vermelha.
Sinto-me honrado de ter visto esse lance mágico no velho Trapichão. Talvez o CSA precisasse dele para entender sua força e buscar alternativas capazes de mudar o curso de seu navio. Aos leitores, garanto que vou guardar este gol na primeira estante da memória e, quando me perguntarem sobre o lado sujo do futebol, vou buscá-lo de pronto para responder que o poder desmedido do esporte é muito mais forte que ele. 

Crédito da foto: Ailton Cruz

2 comentários:

Luiz Júnior disse...

Texto Muito bom ... Irado mesmo velho !

Felipe Anderson Feitosa disse...

É uma honra ter em Alagoas um cronista do seu calibre, Victor.
Parabéns pelo texto.