sexta-feira, 29 de abril de 2011

Messi x Maradona

Em épocas distintas, Messi e Maradona defenderam a camisa do Barça
O novo sempre causa repulsa. Quando observamos de perto um fenômeno, ele parece não ter a força que o tempo pode lhe conferir. No esporte, invariavelmente, os mais velhos são mais conservadores do que os senadores do Partido Republicano dos Estados Unidos. Há uma necessidade natural dos mais experientes de guardarem suas preferências no passado mais distante que viveram. Quando perguntamos aos cinéfilos profissionais sobre o melhor filme de todos os tempos, eles costumam buscar na memória películas pouco conhecidas, rodadas, muitas vezes, em países sem grande tradição na sétima arte. Esse é um dos diferenciais deles.
Faço esse longo comentário para entrar numa seara perigosa: a das comparações. Para mim, marcado por 33 anos de intensa dedicação ao esporte, a audácia é pertinente. Com muita atenção, vi ambos jogarem e posso avaliá-los sem medo de cometer injustiças. Revelo agora, enfim, que os objetos do estudo são os argentinos Diego Armando Maradona e Lionel Messi. 
O primeiro é considerado o maior jogador da história da seleção argentina. Um monstro canhoto e baixinho, de 1,64m, que marcou época em quase todos os clubes que defendeu e, quase sozinho, conquistou uma Copa do Mundo. No Napoli, Maradona também arrancou aplausos entusiasmados até dos mais introspectivos torcedores. Entrou num time de médio porte e, com a ajuda fundamental dos brasileiros Alemão e Careca, conquistou dois "scudettos" num tempo em que os principais rivais da Itália também contavam com jogadores fora de série. Diego era extremamente habilidoso, rápido e decisivo. Foi, sem dúvida, um dos virtuoses do futebol, mas seus feitos não podem ser comparados aos de Pelé. Há um abismo entre eles.

Diego conquistou menos títulos, mas tem uma Copa



Maradona disputou 678 partidas ao longo de sua conturbada carreira e marcou 345 gols, sendo 311 nos clubes e 34 com a camisa alviceleste da Argentina. El Pibe nunca levantou a Liga dos Campeões e guarda em sua galeria apenas seis títulos conquistados. Os principais deles foram, pela ordem, o Mundial de 1986 e os Italianos de 1987 e 1990. Maradona, ao longo de sua trajetória no futebol, foi artilheiro de sete competições, sendo cinco vezes do Argentino, uma do Italiano e uma da Copa da Itália.
Messi chegou ao Barcelona com apenas 12 anos. Cresceu vendo jogadores diferenciados passarem pelo Camp Nou e, desde 2004, vem pulverizando recordes. Depois de ser eleito o melhor do mundo por duas vezes, o baixinho canhoto, de 1,69m, está perto de alcançar pelo terceiro ano consecutivo a artilharia da Liga dos Campeões, a principal competição interclubes do mundo. Nessa temporada, o craque marcou 52 gols em 50 partidas, marca assombrosa para quem não é centroavante. Já levantou dois troféus da Liga e deve conquistar agora o quinto caneco do Campeonato Espanhol. Mesmo contestado em seu país, Messi também já guardou uma medalha de ouro olímpica, marcou 135 gols na carreira e, aos 23 anos, só precisa brilhar numa Copa para ser comparado a Diego. Com a mesma idade do jogador do Barça, Maradona ainda não havia se destacado num Mundial. Lembro-me perfeitamente que ele saiu da Espanha, em 82, trucidado pelas críticas. Não fez a Argentina passar por cima dos rivais na Copa e, após um pontapé ridículo no volante Batista, foi expulso de campo, perdeu para o Brasil por 3 x 1 e foi eliminado nas quartas.
A transformação do Maradona de 1986 no Messi de 2011 
Quatro anos depois, assombrou o mundo com uma atuação perfeita no México. Messi terá essa chance justamente daqui a três temporadas, no Brasil. O talento pode ser comparado, sim, mas a personalidade ainda não. Maradona vivia em campo a idolatria pela pátria e se entregava ao jogo como se lutasse pelos mortos das Malvinas. Lionel está na Espanha há 11 anos e, naturalmente, não tem a mesma identificação de Maradona com a camisa de sua seleção. O escudo do Barça parece ser mais imponente para ele, mas, se quiser atingir o patamar dos gênios da bola, vai precisar inverter esse sentimento, pelo menos, nos anos de Copa. Sem a alma em chamas, ninguém é capaz de levantar a pesada taça do mundo. Esse é o preço cobrado pela glória.

Nenhum comentário: