sexta-feira, 8 de abril de 2011

“Sennas” de um filme

Filme conta a saga de um dos maiores heróis nacionais
O filme sobre a trajetória de Ayrton Senna chegou aos DVDs. Como o documentário foi ignorado pelos cinemas de Maceió, tive que me contentar em assisti-lo numa tela menor. Apesar de abusar do maniqueísmo, com Senna no papel de herói e Alain Prost ostentando a barba por fazer dos vilões, o filme nos remete a um tempo mágico da Fórmula 1 e do esporte. Nas décadas de 80 e 90, as corridas tinham protagonistas dentro e fora das pistas. As personagens eram ricas de detalhes. Senna era obcecado por marcas, vitórias e títulos. Não suportava andar atrás do líder e, de quebra, incorporava durante as provas Policarpo Quaresma, o famoso personagem de Lima Barreto que exaltava a pátria com elmo, capa, espada e atitude. Num tempo em que a baixa autoestima era um dos males da nação, o tricampeão abria trincheiras de perseverança com vitórias e bandeiras.
Prost era o metódico vencedor. Estrategista nato, ele esperava o vacilo dos rivais para dar o bote e conquistar títulos com uma coleção de terceiros e quartos lugares. Nessa toada, levantou o troféu da F-1 em quatro temporadas. O tricampeão Nelson Piquet era um rebelde com causa e efeito. Questionador, bom de volante e excelente acertador de carros, ele só não alcançou um patamar mais alto na galeria de ídolos do País por causa de sua personalidade. Chato e arrogante, Piquet era a antítese de Senna no quesito carisma. Nigel Mansell era o responsável pelo show nas pistas e nos picadeiros do circo. Veloz e irresponsável, o Leão não tinha meias-medidas. Seu carro parava na última volta enquanto ele já acenava para as câmeras, seu pneu estourava por causa da falta de cuidado em momentos que exigiam menos velocidade e seu talento também o conduzia a triunfos pouco prováveis.
Esses quatro cavaleiros poderiam ter sido mais explorados na fita, mas o diretor Asif Kapadia preferiu dividir o mundo entre Senna e Prost. Feitas essas ressalvas, confirmo que o ajuste no foco atende às expectativas dos exigentes seguidores da Fórmula 1. São registrados com precisão os bate-bocas históricos nas reuniões entre pilotos e o chefão da época, o francês Jean-Marrie Balestre, e são exibidas imagens inéditas dos brasileiros, além das cenas mágicas de Ayrton desafiando a velocidade, o espaço e a lógica. Numa das falas mais marcantes do filme, Prost diz que Senna não queria apenas vencê-lo, queira humilhá-lo. Diante da parceria entre o francês e seu compatriota Balestre, o brasileiro tinha motivos de sobra para fazê-lo, mas, nas entrelinhas, está implícita uma admiração mútua entre os rivais, que se reaproximam nas voltas finais de 1993.
O desfecho com a música Maracatu Atômico, composta por Jorge Mautner e Nelson Jacobina em 1973, e interpretada nos anos 90 por Chico Sciense, me fez desafiar o tempo e reviver as manhãs imponentes de domingo e juventude. Passageiro fiel do carro de Ayrton, só fui derrotado ao longo dessa bela jornada quando sua Williams perdeu o controle na curva Tamburello. Aquela pancada me ajudou a descobrir que a fantasia, não mais que de repente, pode se desfazer em lágrimas reais.

Um comentário:

Tiago Wakabayashi disse...

É uma critica q eu faço do filme tbm: teve outros personagens brilhantes que mereciam mais destaques , mas dentro do que foi proposto, foi muito bem. Vlw Asaf!