terça-feira, 5 de julho de 2011

Análise da seleção - O monstro devorador de bonés

Mano Menezes talvez mude o esquema tático da seleção para o jogo de sábado
A seleção não foi bem na estreia. Os jogadores não assimilaram o esquema de Mano Menezes, e a produção do time foi abaixo do esperado. A Venezuela, é bom destacar, está longe de ser o saco de pancadas do Continente. A seleção de Cesar Farias ganhou poder de marcação e vai dar trabalho na sequência da Copa América. Apesar disso, era possível vencê-la no último domingo.
Não é fácil montar uma seleção num período de entressafra. Jogadores que desequilibram nos clubes, às vezes, não rendem com a camisa amarela e há pouco tempo para dar consistência tática ao time. A individualidade se sobrepõe ao sistema. Por isso, o maior erro de Mano Menezes foi ter tentado implantar o ofensivo 4-3-3 já no início da competição. O esquema é ousado e requer entrosamento, até porque são poucos os times que atuam dessa forma. Não gosto do sistema. Não pela parte tática, mas pelos jogadores que dispomos para executá-lo. A Holanda costuma atuar assim; o Barcelona também. Mano o desenvolveu com qualidade em 2009, com o Corinthians campeão paulista e da Copa do Brasil.
Deu certo porque dois dos atacantes do Timão, à época, eram operários. Jorge Henrique subia e descia com desenvoltura e Dentinho, em início de carreira, se dedicava demais em campo para não perder a condição de titular. Por isso, até sofreu lesões em série nos meses que se seguiram. Na frente, Ronaldo ainda era capaz de decidir. Havia em campo alguns vestígios do Fenômeno.
Em pé: Thiago Silva, Lúcio, Julio Cesar, André Santos, Ramires e Ganso;
Agachados: Daniel Alves, Lucas Leiva, Robinho, Pato e Neymar
Hoje, nossos atacantes não têm essas características. Neymar precisa ter mais liberdade para criar. No Santos, ele tem esse salvo-conduto de Muricy Ramalho e retribui com gols. Robinho já nem justifica mais a condição de titular. Há muito deixou de ser o jogador diferenciado que encantou a torcida brasileira no início da última década. Na frente, Pato também precisa ser devidamente testado.
Na armação, Paulo Henrique Ganso corre sérios riscos nessa Copa América. Como já escrevi nesse espaço, ele vai ser cobrado por usar a 10 e ser o jogador diferenciado de armação do País. O problema é que, além de ser muito jovem, ele está longe da condição física ideal. Sem ritmo, não cumpriu seu papel diante da Venezuela e quase não foi notado na partida. Neymar, perdido no esquema do treinador, também pouco apareceu. Pato, na primeira etapa, foi o mais efetivo do ataque, mas não acertou os arremates.
Ainda fiquei preocupado com os nossos laterais. André Santos e Daniel Alves estavam presos à marcação e, quando subiam, batiam cabeça com Neymar, pela esquerda, e Robinho, na direita. Bem abertos, nossos atacantes também não justificaram o desprezo do esquema pelos laterais. Perdidos, eles não executaram uma simples jogada de linha de fundo durante a partida.
Sobrecarregados, os volantes Lucas Leiva e Ramires cometeram muitas faltas. Os zagueiros Lúcio e Thiago Silva fizeram bem o seu papel e não assustaram os torcedores. Nossa maior dificuldade foi ofensiva. Ou melhor: foi criativa. As bolas não chegavam ao ataque com qualidade. O problema que Mano esperava solucionar com a chegada de Ganso continua atormentando o treinador. Após esse jogo, ele deve ter alimentado, inclusive, muitas dúvidas sobre o novo sistema da seleção. Esse é um velho dilema enfrentado pelos comandantes do escrete nacional: se mantêm suas convicções e perdem, são teimosos; se alteram radicalmente os rumos do trabalho e até vencem, são inseguros. O técnico gaúcho vai ser devidamente apresentado nesta semana ao implacável monstro da pressão. Ao longo do tempo, ele atormentou o sono de todos os treinadores da seleção brasileira. Baseado na história, afirmo que somente os títulos podem diminuir sua fome voraz por bonés.

Verbete - Quando os treinadores pedem demissão, costuma se dizer no futebol que eles pedem o boné. Como nem todos os meus leitores têm obrigação de conhecer o "futebolês", explico para justificar o título da coluna.

Desconto - A estreia é o pior dos jogos de uma competição. A primeira partida é carregada de ansiedade e costuma realçar os defeitos do time. Espero que ela tenha sido um dos principais motivos para o ineficiente futebol apresentado pela seleção no empate com a Venezuela. Na competição de 2007, o Brasil perdeu por 2 x 0 do México.

Exemplo em casa - A seleção feminina estreou mal no Mundial. Contra a Austrália, a vitória por 1 x 0 foi muito criticada pela imprensa. Marta, bem marcada, pouco contribuiu para o triunfo. Veio o jogo de domingo contra a Noruega para as qualidades aparecem. A melhor do mundo abriu sua caixa de talento e comandou a vitória por 3 x 0 sobre uma adversário forte. A alagoana mostrou na Alemanha que realmente sobra na turma do futebol feminino.

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