segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A aldeia de Zagallo

Zagallo é muito questionado na terra em que nasceu
Algumas coisas que ouço nas ruas me deixam aborrecido. O provincianismo é uma delas. Fernando Pessoa exaltava o rio de sua aldeia simplesmente porque ele alimentava o seu povo e foi capaz de realçar os cenários de sua infância. Não tivesse o poeta português vivido tão perto do rio, não saberia qual o seu cheiro e não poderia escrever sobre a sua importância.
Na semana passada, Mário Jorge Lobo Zagallo completou 80 anos e foi exaltado pela imprensa mundial. O único tetracampeão do futebol mereceu, sem dúvida, os confetes impressos. Mas o que me incomodou sobre o assunto foi ouvir nas ruas de Maceió uma certa mágoa com o homem. Normalmente, se diz do Velho Lobo por estas terras que ele tem vergonha de ser alagoano, que não se interessa pelas coisas do Nordeste.
Isso é injustiça provinciana. Zagallo tem, em verdade, suas raízes no Estado, mas há uma relação bem mais estreita entre ele e o Rio. Seus pais buscavam mais oportunidades de trabalho e o levaram para a então Capital Federal com apenas oito meses. Dessa forma, seria impossível que fosse tomado por nosso sotaque e ostentasse nossas características. Mesmo assim, Zagallo sempre fez questão de exaltar suas raízes e visitar o seu clã em Maceió.
Em 1958, depois de ter defendido o Botafogo, o América e o Flamengo, um jornalista perguntou a Zagallo sobre qual camisa lhe causava mais espanto e qual escudo lhe despertava os sentimentos mais ternos. Sem pensar duas vezes, ele afirmou que a seleção brasileira responderia aos dois questionamentos. Assim, o jogador seguiu sua carreira, transformou-se em treinador e ganhou fama no escrete. Hoje, o homem que se confunde com a história da camisa verde-amarela é um cidadão nacional. Comemoremos, então, o fato de ele ter nascido em nossa aldeia e, mesmo sem o sotaque nordestino, ter defendido o País na alta roda do futebol mundial. Não tenho dúvidas de que a história do esporte o guardará nas primeiras estantes da memória. Alagoas também deveria fazê-lo.

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