terça-feira, 25 de outubro de 2011

Especial - Lesões que encurtam a carreira dos jogadores

Simoni é um dos profissionais mais respeitados da medicina esportiva do País

 As lesões cumprem a perversa função de encurtar a carreira dos atletas. O tempo de vida útil do jogador depende de seu histórico no Departamento Médico. Se as visitas foram frequentes e foram longos os períodos de afastamento das atividades de campo, há uma forte tendência de a aposentadoria ser antecipada.
Para ter uma avaliação precisa sobre esse inimigo tão presente na vida dos boleiros, o blog consultou o ortopedista Michael Simoni, ex-coordenador médico do Fluminense e um dos profissionais mais conceituados da medicina esportiva no País.
Simoni disse que o principal responsável pelo fim precoce de uma carreira no futebol ainda é o joelho.
“Essa é, sem dúvida, a lesão mais complexa e perigosa para um jogador. Com o avanço da medicina esportiva, encontramos formas de diminuir o índice de aposentadorias por causa do joelho, mas ainda há muitos casos que se tornam irreversíveis. Uma série de lesões, por exemplo, causa artrose, e as dores são insuportáveis. O Reinaldo, um dos grandes ídolos do Atlético-MG, encerrou a carreira muito cedo em razão do joelho. Hoje, poderíamos prorrogar seu tempo no futebol, mas ainda não somos capazes de vencer todas as lesões que se apresentam”, explicou Simoni.
De acordo com o médico, na sequência, as lesões no tornozelo e nos quadris também estão no topo do ranking mais perigoso para o atleta. “O tornozelo foi o responsável pelo fim da carreira do holandês Marco Van Basten, um dos melhores jogadores da década de 80. Uma série de entorses vira um problema de grandes proporções para atletas com mais de 30 anos. As lesões nos quadris, que atingem até a virilha, também são complexas e de difícil tratamento”, destacou.
Outro inimigo do jogador profissional é o peso. Quem não conseguir manter uma alimentação equilibrada, ou for vítima de doenças que aumentam muito o percentual de gordura, dificilmente vai passar dos 32 anos no campo de futebol. “O aumento do tecido gordo diminui proporcionalmente a massa muscular. Assim, o jogador fica mais suscetível a lesões musculares. Além disso, há uma perda da explosão e da velocidade, e o atleta, invariavelmente, precisa antecipar a aposentadoria. O Ronaldo sofreu com esse problema e com outros também. Ele foi herói por se manter em atividade até este ano. Precisou conviver com dores terríveis”, detalhou Michael Simoni.

Simoni diz que futebol de hoje faz mais vítimas

Simoni confirma que a evolução da medicina esportiva ajuda a diminuir o prazo de recuperação de uma atleta, mas também chama a atenção para o aumento da carga de esforço físico do futebol atual.
“Se por um lado há uma incontestável evolução médica, por outro você tem um calendário complexo, que submete o jogador a um esforço muito grande. Assim, diria que hoje, apesar de todo o investimento feito na medicina esportiva e na capacitação de profissionais, há muito mais lesões do que no futebol do passado”, afirmou.
O médico também alerta para as constantes mudanças na comissão técnica dos times do futebol brasileiro.  
“Não há planejamento no nosso futebol. Infelizmente, não há projetos sérios que resistam a três ou quatro derrotas. Se o time vence, tudo está bem. Se perde, as mudanças são feitas de forma intempestiva. Defendo as comissões técnicas permanentes. Acho que pior do que o tempo inadequado de trabalho nas pré-temporadas é a troca constante de preparadores físicos nos clubes”, alertou Michael Simoni.
Segundo o médico, os métodos de cada profissional de preparação física são distintos, e isso acaba aumentando a quantidade de lesões no elenco. “Quando sai um profissional e entra outro, a metodologia é alterada de forma radical. O grande prejudicado por essa instabilidade do mercado do futebol é o jogador, que recebe cargas desiguais de trabalho e pode estourar”, avaliou o ortopedista.
Nos exames realizados nos grandes clubes do País antes da pré-temporada, é feita uma revisão ortopédica no atleta, além de uma avaliação fisiológica e isocinética. “Também é feita a avaliação cardíaca e uma bateria de exames de sangue. Com a isocinética, hoje podemos observar como está a musculatura do jogador e programar a carga de exercícios de acordo com sua capacidade. Casos de diabetes e hipertensão são muito incomuns em atletas, assim como doenças graves. Nesses quadros raros, as doenças cardíacas são as responsáveis pela aposentadoria precoce dos jogadores”, explicou.
Michael Simoni trabalhou no Fluminense com o atacante Washington, que chegou a colocar três hastes no coração e quase abandonou a carreira em 2003. “O Washington tinha diabetes, mas ele fez uma enorme quantidade de exames e conseguiu o atestado do Doutor Constantino Constantini para jogar. Creio que esse cardiologista seria o único do País a liberá-lo para voltar ao futebol depois do problema cardíaco que teve. Ele foi contratado por Atlético-PR, São Paulo e Fluminense com o aval do Constantini. Por isso, não tive nenhum trabalho a mais com o atleta. No final do ano passado, o próprio cardiologista advertiu o jogador de que estava na hora de parar, que era arriscado continuar, e, apesar de tentar prorrogar um pouco mais a carreira, ele ouviu o médico e se aposentou aos 35 anos”.

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