sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Especial - Zagallo, o homem que driblou o tempo

Aos 80 anos, Zagallo mostra as chuteiras que usou em 1958
O alagoano Mário Jorge Lobo Zagallo adquiriu a condição de lenda do esporte. Dos cinco títulos que fizeram do Brasil o País do futebol, quatro foram conquistados com sua decisiva participação. Mesmo contestado pela parte mais radical da imprensa, nunca se rendeu às críticas e venceu a maioria dos desafios apresentados em quase 60 anos de atividade. O tempo já tentou por vezes vencê-lo, mas foi destruído pelas marcas que o alagoano deixou na história.
Zagallo deu seus primeiros chutes na bola nas ruas do Rio de Janeiro e ganhou a oportunidade de defender o América no final dos anos 40. Ele conta que era um soldado servindo ao Exército no Maracanã no dia da decisão da Copa do Mundo entre Brasil e Uruguai. Perto do campo de jogo, viu uma seleção quase perfeita ser vencida pela garra celeste. Comandados em campo pelo capitão Obdúlio Varela, os uruguaios multiplicaram suas forças e viraram um jogo improvável.
A seleção, que vencia com um gol de Friaça e jogava pelo empate, observou, atônita, o adversário marcar com Schiafino e Giggia. Eles fizeram a história do esporte de seu país e até hoje são reverenciados como velhos heróis de guerra.
Daquela seleção brasileira, poucos atletas são lembrados hoje pela massa. Um deles teve seu quadro pintado com o semblante de um herói derrotado. O goleiro Barbosa foi julgado e condenado pelo segundo gol uruguaio e jamais perdoado pelos torcedores de seu tempo. Morreu aos 79 anos, ainda preso ao cenário daquele jogo.
As cenas da final de 1950 ficaram presas na memória do alagoano e foram muito importantes para a sua formação como atleta. Oito anos depois, Zagallo era titular da seleção brasileira em outra decisão de Mundial. O camisa 7 era diferente dos atacantes da época. Sua consciência tática ajudava o time a diminuir os espaços dos adversários. Sua qualidade ofensiva também surpreendia os marcadores e, de vez em quando, colocava o homem na cara do gol. Numa dessas oportunidades, Zagallo marcou o quarto do escrete na vitória por 5 x 2 sobre a Suécia e, assim como as lendas uruguaias, gravou seu nome na história das Copas.
Nesse período, as cenas corriam pela janela do tempo. O alagoano vencia a maioria dos jogos que disputava; primeiro no Flamengo, depois no Botafogo, e sempre na seleção. Colecionava triunfos e, apesar de ser coadjuvante de Pelé e Garrincha, mantinha sua posição na seleção brasileira. Pepe era um rival a ser batido. Mas o “Canhão da Vila” não voltava para marcar como o alagoano e, também por causa das lesões, perdeu a disputa no Mundial de 62. Veio mais uma Copa quase perfeita, e o título selou a competência e a sorte do impetuoso Zagallo.


As memórias do Velho Lobo dos campos e das Copas

Zagallo posa ao lado do seu busto, no Rio de Janeiro
As imagens de glória da seleção nos anos 50 e 60 são recordadas hoje com precisão pelo senhor de 80 anos. Zagallo foi muito festejado em 2011. O tempo, nesse sentido aliado, calou os seus críticos e aumentou a força de seu passado imponente. Em entrevista a O JORNAL, o alagoano falou sobre sua longa carreira no futebol e, ao contrário da maioria dos atletas, disse ter encontrado uma forma de vencer o relógio.
“Não houve um trauma com a minha aposentadoria porque, o que não é comum no futebol, minha vida teve uma continuidade. Aos 34 anos, estava bem condicionado fisicamente e não pensava em pendurar as chuteiras. Mas, naquela época, sabia que a carreira de um jogador, talvez pelo preconceito, não costumava passar dos 35. Deixei as coisas acontecerem naturalmente e, em 1966, durante uma excursão ao México, recebi um convite dos dirigentes do Botafogo para assumir o comando do time juvenil, e resolvi aceitar o desafio. Ainda tinha sete meses de contrato, e a única exigência que fiz foi assinar um novo contrato já como treinador do juvenil. Assim, sem despedidas ou jogos festivos, aconteceu a minha transição entre o jogador e o técnico”, recordou.
Zagallo disse ter direcionado seu pensamento apenas para a nova carreira que se abria e não alimentou a saudade do seu tempo de jogador. Parecia prever que as emoções estavam apenas começando.
“A minha passagem como treinador do juvenil do Botafogo foi fundamental para a minha carreira, porque descobri ali a minha capacidade de liderar. Antes, fazia parte do grupo, desenvolvia meu futebol individualmente, mas não sabia dessa minha aptidão. Os resultados vieram mais rápido do que eu esperava. Conquistei o título juvenil no mesmo ano e, em seguida, fui chamado para o profissional do Botafogo. Trabalhando com jogadores da qualidade do Gerson, ganhei o carioca de 67 e 68 e a Taça Brasil em 1968”, lembrou Zagallo.

A montagem do esquadrão de 1970

O técnico Zagallo montou a máquina da seleção brasileira em 1970

Aos 38 anos, Zagallo assumiu a missão mais difícil do futebol brasileiro. Pressionado até pela Ditadura Militar, o comunista João Saldanha deixou a seleção e abriu uma crise às vésperas da Copa. Dino Sani recusou o convite da então Confederação Brasileira de Desportos (CBD) para treinar o Brasil, e a segunda opção foi o treinador alagoano.
Em 1970, a seleção estava classificada para o Mundial, mas, apesar de ter uma geração de craques, ainda era vista com desconfiança por torcedores e críticos. Eliminada na primeira fase da Copa de 1966, a bicampeã precisava recuperar o prestígio.
Zagallo aceitou o desafio lançado pelo presidente da CBD, João Havelange, e fez mudanças pontuais na equipe. Ele chegou à conclusão de que o talento precisava ser privilegiado em 70 e escalou do meio para frente jogadores com características semelhantes. Para o técnico, Gerson, Pelé, Rivelino e Tostão poderiam atuar juntos e, com o apoio dos cardeais do elenco, executou as alterações.
Na defesa, o lateral ofensivo Marco Antônio foi substituído pelo marcador Everaldo, e o volante Piazza foi improvisado na zaga, ao lado de Brito. O goleiro Félix, o lateral-direito Carlos Alberto Torres, o volante Clodoaldo e o atacante Jairzinho completaram o esquadrão canarinho.
“Para explicar a formação de 1970 é importante voltarmos no tempo. Em 1958, o técnico Vicente Feola mudou a forma de a seleção jogar. Ele saiu do tradicional 4-2-4 para o 4-3-3 porque eu fazia uma dupla função em campo. Voltava para marcar sem a bola e, quando a recuperávamos, também tinha fôlego para chegar ao ataque. Coincidentemente, quando iniciei meu trabalho de treinador, a seleção jogava no 4-2-4 do Saldanha. O Rivellino e o Clodoaldo, por exemplo, eram reservas”, contou o treinador.
Em 74 dias de trabalho, Zagallo fez profundas mudanças na seleção. “Pensei: se em 1958 a seleção já atuou no 4-3-3, não poderia admitir que o time jogasse em 1970 no 4-2-4. Seria um retrocesso. Mudei o esquema e passei a jogar com cinco camisas 10. O talento foi privilegiado, mas tudo dentro de um sistema bem definido. Marcávamos por zona, esperando o adversário e, quando roubávamos a bola, atacávamos com seis jogadores. Assim, vencemos jogos históricos e conquistamos o tricampeonato. Foi um momento inesquecível para mim. Foi o auge do futebol”.
Apesar do título, Zagallo ainda foi atacado por grande parte da imprensa, que tentava tirar-lhe os méritos da formação da equipe. “O João Saldanha era jornalista e ficaria constrangedor para ele se seus próprios colegas me exaltassem. Por isso, muitos disseram que apenas dei continuidade ao trabalho dele. Fiz o que deveria ser feito e me orgulho demais da seleção de 70. Ela ficará marcada para sempre na história do esporte. Isso ninguém vai conseguir apagar”.

O último título em Maceió

Zagallo conquistou a Copa dos Campeões em 2001
Com tempo para treinar, a seleção de 70 voou em campo e, depois de colocar a faixa, foi considerada pela crítica internacional o time mais fantástico de todos os tempos. Perto da despedida, Pelé esteve perfeito na Copa do Mundo, e seus coadjuvantes também cumpriram com louvor a missão do tri. O Brasil venceu os seis jogos que disputou, contra Tchecoslováquia (4 x 1), Inglaterra (1 x 0), Romênia (3 x 2), Peru (4 x 2), Uruguai (3 x 1) e Itália (4 x 1). Zagallo adquiriu status. O jogador vencedor das décadas de 50 e 60 abriu espaço para um treinador de altíssimo nível. As imagens do passado ficaram embaçadas diante do sucesso presente. Assim, o alagoano venceu as desconfianças e o primeiro mata-mata contra o tempo.
Entre sucessos e desilusões, o treinador seguiu sua carreira vencedora. Perdeu as Copas de 74 e de 98, mas foi fundamental na campanha do tetra, em 1994. Já no cargo de coordenador-técnico, foi o escudo de Parreira no Mundial e ajudou o País na retomada do seu futebol. Com quatro títulos de Copas, Zagallo se transformou no maior vencedor da história da bola, e sua imagem passou a ser confundida com a camisa da seleção brasileira.
O Velho Lobo voltou a treinar clubes e, em 2001, conquistou sua última taça numa cidade especial. “Deus me permitiu que o meu último título fosse levantado na terra dos meus pais e na minha terra. Tive essa felicidade de vencer a Copa dos Campeões com o Flamengo em Maceió e fiquei muito emocionado com tudo isso. Foi um ciclo que se fechou ali. Por onde vou, carrego esse orgulho de ter nascido em Alagoas, e essa conquista foi mais um presente que ganhei”, declarou.
Em 2006, Zagallo voltou a ser coordenador-técnico da seleção, mas, doente e depressivo, não conseguiu executar o trabalho que esperava. O Brasil caiu diante da França, e o alagoano deixou, sutilmente, o campo de jogo.
“Sempre lidei muito bem com o tempo e agradeço a Deus todos os dias por tudo o que aconteceu comigo. A princípio, eu não pensava em jogar futebol, meus pais não queriam, mas, por causa do meu irmão, comecei no América de brincadeira. Os anos se seguiram, fui vitorioso na vida e na carreira, e hoje só guardo boas lembranças. Acompanho o futebol, assisto aos jogos pela TV e sempre me emociono com a seleção. Aos 80 anos, acho que ainda posso colaborar de alguma forma com a Amarelinha. Não fui convidado nem vou me oferecer, mas, se for chamado, estarei presente no projeto para a Copa 2014. Quando a seleção nos chama, é nosso dever atendê-la de pronto, sem pensar duas vezes”, avisou o incansável Lobo, que segue desafiando o tempo como um Policarpo Quaresma de chuteiras e boné.

Nenhum comentário: