domingo, 25 de dezembro de 2011

O Barcelona e o futebol total

O Barcelona tem como base o futebol da seleção holandesa de 1974
Um tema recorrente nas conversas ligadas ao esporte nesta semana foi a decisão do Mundial Interclubes entre Barcelona e Santos. Por isso, resolvi fazer uma análise do impressionante time espanhol a partir da origem de seu sistema. Há nele consideráveis adaptações ao novo futebol, mas, ao mesmo tempo, enxergo na equipe traços marcantes de uma escola consagrada.
Para falar desse Barça é interessante voltarmos um pouco no tempo. No início da década de 70, o Ajax assombrou o futebol europeu com uma forma diferente de jogar. Comandado em campo por Johan Cruijff, o time revolucionou o esporte. Começava ali um período que tinha tudo para mudar os padrões do jogo de bola. Essa equipe conquistou a Liga dos Campeões nos três primeiros anos daquela década e foi a base de uma das seleções mais impressionantes da história.
Curiosamente, o primeiro título do Ajax da chamada era de ouro foi levantado sob a batuta do holandês Rinus Michels, considerado pela Fifa o melhor treinador do último século. Ele tinha peças polivalentes no grupo e, em 1970, começou a desenvolver o sistema que ficou conhecido como “futebol total”, onde, a grosso modo, todos os jogadores atacavam e todos defendiam.
Pouca gente lembra hoje que o técnico foi contratado em 1971 pelo Barcelona. No seu novo clube, lançou algumas sementes da revolução que pretendia fazer, mas não encontrou os atletas diferenciados do Ajax. Em 1974, Michels foi chamado para comandar o projeto da seleção holandesa na Copa do Mundo da Alemanha e, enfim, pôs em prática os seus planos mais ousados. A base montada no Ajax havia amadurecido, conquistado a Liga dos Campeões e o Mundial de Clubes e contava com um gênio no auge da forma. O carrossel holandês montado pelo treinador passou a girar em torno de Cruijff. Nesse sistema, Neeskens e Resembrink eram auxiliares de comprovado talento e, no Mundial, a Holanda assombrou o Planeta.
Sem a bola, os jogadores da Laranja abafavam o adversário e, com ela, primavam justamente pelo controle da partida. Com impressionante capacidade física, o time também chegava inteiro ao ataque e, quando sofria estocadas, costumava destruir os adversários com uma linha de impedimento perfeita. O Brasil foi uma das vítimas da Holanda e caiu nas semifinais da Copa com uma derrota por 2 x 0 e uma aula de futebol. Para resumir a ópera, a Laranja perdeu o título mundial para a Alemanha, por 2 x 1, mas marcou época no esporte. Depois de 74, Michels tentou reconstruir algumas vezes o carrossel, mas jamais obteve o mesmo êxito porque faltavam aos seus times os atletas daquela geração.
Esse Barcelona, que encanta a torcida e a crônica esportiva, tem muito daquela Holanda. As características mais fortes do sistema vêm, sem dúvida, dos tempos de Michels. Cruijff tornou-se uma lenda jogando pelo Barça ainda na década de 70 e, bem mais tarde, foi treinador do time. O também holandês Frank Rijkaard foi técnico do clube na última década e preparou essa geração de Messi, Xavi e Iniesta.
As lições do velho Michels foram passadas por seus discípulos e, 37 anos depois, são recolocadas em campo. Desde 2008, o técnico espanhol Pepe Guardiola tem em mãos uma nova geração de ouro, que consegue praticar hoje o futebol total desenvolvido pela Holanda.


A Holanda de 74  não conquistou a Copa, mas assombrou o mundo


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