domingo, 17 de fevereiro de 2013

Joãozinho supera trauma no Atlético-MG e se torna ídolo do CRB

Joãozinho Paulista marcou época no CRB (Jonathan Lins/G1)
Certa vez, o goleiro Rogério Ceni disse que a identidade de um jogador de futebol com um escudo é fundamental. Para ele, é melhor ser lembrado por apenas uma torcida do que ser esquecido por todas. Joãozinho Paulista atingiu esse patamar. Como explica o seu apelido, ele não é alagoano por nascimento, mas se considera por opção. O jogador nasceu em 1958 em Piracicaba, São Paulo, e acertou a sua transferência para o CRB em
1976, aos 18 anos.

Com gols fáceis, difíceis e improváveis, o garoto tomou corpo na Pajuçara e virou o maior ídolo da massa vermelha. Quase 36 anos depois da estreia do atacante no Galo da Pajuçara, a bandeira com seu rosto ainda é levada pelos torcedores aos estádios em que clube manda seus jogos. Perto da arquibancada, Joãozinho segue defendendo aquele mesmo escudo, mas em outras funções.

O velho camisa 9, hoje aposentado, não vai ser esquecido facilmente. Quando um novo centroavante regatiano perde um gol embaixo da trave, uma voz grave se destaca no meio da massa com tom professoral.

Artilheiro marcou 153 gols com a camisa do CRB (Jonathan Lins/G1)
- Se fosse no tempo do Joãozinho, o Galo já estaria vencendo por 1 x 0. Silva cruzava e ele só fazia cumprimentar- grita o anônimo alvirrubro.

João Édson de Barros ainda atuou em grandes clubes do País, como Internacional, Atlético-MG, Goiás e até no CSA, mas nunca  se identificou tanto com outra camisa. O vermelho do CRB realçou sua carreira e fez do centroavante o maior artilheiro da história centenária do clube.

- Com muito orgulho, marquei 153 gols pelo CRB. Em estaduais únicos só perdi para o Inha, também do Galo, que marcou 36 gols em 1995, dois a mais do que eu em 1984. Mas ele ainda disputou 13 jogos a mais - comentou Joãozinho, que ainda é muito identificado com a torcida.

- Não posso reclamar da falta de reconhecimento. Essa torcida maravilhosa me respeita e me homenageia sempre que pode. Continuo trabalhando no clube, seja como treinador, auxiliar-técnico ou coordenador das categorias de base. Fico feliz em poder ajudar o Galo e quero sempre vê-lo no topo - acrescentou João dos Gols, apelido que gostava de ouvir entoado pelas arquibancadas.

João marca gol no CSA na final de 1980 (Arquivo Museu dos Esportes)
Joãozinho tem vivas na memória as imagens marcantes de sua carreira. Lembra com riqueza de detalhes o seu início no CRB e os títulos que conquistou.

- Cheguei ao CRB no dia 11 de março 1976. A diretoria do clube foi observar o Ditinho e o Ricardo no XV de Piracicaba. O Fernando Gomes de Barros, dirigente do Galo, me viu atuar numa quarta-feira à noite e perguntou ao presidente sobre a minha situação. Ele disse que me liberava sem nenhum custo e vim de contra-peso - contou.

O atacante desembarcou em Maceió com 18 anos e conquistou a torcida com muitos gols e grandes atuações.

- Estreei na decisão do Segundo Turno contra o CSA e marquei os três gols do CRB na vitória por 3 x 2. Disputei 13 jogos naquele campeonato e marquei 20 gols - emendou.

Joãozinho quando chegou ao CRB (Arquivo pessoal)
Parceria perfeita com Silva

No CRB, Joãozinho Paulista encontrou o seu principal parceiro do futebol. Ao lado de Silva Cão, o artilheiro marcou época em Alagoas a partir de 1976. João contou à reportagem como era o código desenvolvido entre eles que costumava terminar em gols do Galo.

- Silva e eu fazíamos uma dupla infernal para as defesas adversárias. Treinávamos muito, aqui mesmo no campo da Pajuçara, e colocávamos em prática esse trabalho nas partidas. Tínhamos um sistema muito bem desenvolvido para fazer os gols: quando o Silva preparava o cruzamento de fora da área, eu já sabia que a bola vinha no segundo pau e corria para lá. Quando ele entrava na área, levantava a cabeça e depois baixava e eu já sabia que a bola vinha no primeiro pau. Desse jeito ficava fácil. Como eu finalizava bem, era só cabecear e partir para a torcida - contou Joãozinho, mostrando, do banco de reservas do Estádio da Pajuçara, como se posicionava em campo.

O CRB foi campeão alagoano em 1976 e o artilheiro chamou a atenção dos dirigentes do Inter, então bicampeão brasileiro. Ele foi jogar no famoso Colorado e chegou a disputar a Libertadores da América no ano seguinte.

 

Pênalti perdido na final do Brasileiro de 1977

Ainda em 1977, João fechou com o Atlético-MG e ajudou o clube de Belo Horizonte a chegar à decisão do Campeonato Nacional, disputada curiosamente no dia 5 de março de 1978. Mas foi justamente com a camisa alvinegra que o goleador passou pelo momento mais difícil da carreira.

- A imagem negativa que eu tenho do meu tempo de jogador foi na final do Brasileiro. O Atlético fez uma campanha histórica e colocou dez pontos de vantagem sobre o segundo colocado, no caso o São Paulo. Mas, pelo regulamento, haveria um jogo final, no Mineirão. Depois de um empate por 0 x 0 no tempo normal, a decisão foi para os pênaltis. O Cerezo perdeu a primeira cobrança do nosso time, o Ziza e o Alves converteram e chegou a minha vez - lembrou o atacante, para depois prosseguir:

- Caminhei para a marca do pênalti confiante. O Valdir Perez era um grande goleiro, mas eu, mesmo aos 21 anos, tinha certeza de que faria o gol. Vi o goleiro se movimentar para o canto e decidi bater forte na bola, mas acertei muito embaixo e ela subiu.

João (meio) ficou abalado com pênalti perdido (Arquivo)
O Atlético perdeu o título e Joãozinho sofreu em Belo Horizonte. Ele disse que teve dificuldades para dormir nas noites que se seguiram e não tirava da cabeça a imagem do jogo.

- É difícil você perder um pênalti numa decisão de Brasileiro. Depois que eu desperdicei a cobrança, o Márcio também perdeu e vimos a festa do São Paulo no nosso estádio. Fiquei tão mal que pedi ao presidente do Atlético para voltar ao meu CRB.

 João foi trocado pelo zagueiro Zé Preta, voltou a Maceió, mas o acerto não foi com o Galo.

- Fui parar no CSA, mas o clima não era bom. A diferença de tratamento da torcida era grande, me machuquei justamente no clássico contra o CRB e, depois de ser muito criticado, rescindi meu contrato após quatro jogos e voltei a jogar com a camisa alvirrubra. Voltei no clássico e marquei dois gols no CSA. A torcida do outro lado ficou
furiosa - recordou.

João dos Gols na Pajuçara (Jonathan Lins/G1)
Atacante vestiu 22 camisas

Joãozinho brilhou no CRB e também se destacou com outras camisas.

- Sou ídolo das torcidas de Remo, Goiás, Treze, Campinense, Botafogo de Ribeirão Preto e Cerro Porteño, do Paraguai. No total, foram 22 clubes na carreira. Fiz mais de 400 gols, mas resolvi me estabelecer em Alagoas.
 
O ex-jogador foi muito festejado pela torcida do CRB em 2012, ano que marcou o centenário do clube. João só lamentou o rebaixamento do Regatas para a Série C do Brasileiro e a venda do Estádio da Pajuçara.

- Infelizmente, caímos para a Série C, mas não por falta de trabalho, de luta. O clube agora vai se organizar e tem grandes possibilidades de voltar à Série B no próximo ano. Em 2012, ao menos, conquistamos o Estadual - declarou o centroavante, que, apesar dos problemas, está otimista em relação ao futuro do CRB.

- Sobre o estádio, sentimos muito pelo o que está acontecendo, mas foi inevitável. Se não vendesse, as dívidas iriam parar o CRB e o próprio estádio iria a leilão por um preço baixo. Vejo essa situação também como uma oportunidade para o clube crescer. Vai pagar suas dívidas e construir um CT moderno. No fim, os torcedores vão comemorar como nos tempos em que eu estava na grande área. É uma questão de tempo.

Um comentário:

Jane Mourão disse...

Muito interessante a matéria. A massa atleticana com certeza já perdoou o pênalti perdido. Que ele curta agora sua aposentadoria, já que brilhou com lances maravilhosos no futebol brasileiro. Ontem é passado.. agora é bola pra frente