terça-feira, 5 de março de 2013

Jacozinho conta como virou uma lenda do futebol alagoano

Jacozinho já foi coroado rei em Alagoas (Museu dos Esportes)
Houve um tempo em que um habilidoso ponta-esquerda mandava nos campos de Alagoas. Driblava como poucos e tinha o mágico poder de despertar as multidões. Jacozinho dominava a bola, domava seus marcadores e hipnotizava o público.

O personagem era composto por talento, jeito e fala. O sergipano que desembarcou em Maceió em 1982 multiplicou os torcedores do CSA. Em campo, fazia estragos por onde passava; fora dele, cativava até os rivais com um jeito de Pedro Malazarte do Nordeste.

O sergipano Givaldo Santos Vasconcelos nasceu há 54 anos na pequena Gararu. Destaque nas peladas, ele tentou a sorte no futebol profissional e iniciou a carreira no Vasco de Aracaju. De lá, o jogador se transferiu para o Sergipe. Com gols e belas jogadas, ele acabou despertando a cobiça dos dirigentes do Galícia e foi atuar no futebol baiano.

Mas o destino reservou para o ponteiro uma certa camisa azul. O CSA iniciava na década de 80 um de seus períodos mais marcantes de glória. Contratado pelo então presidente do clube, João Lyra, o reforço foi de avião para Maceió e lembra ter causado uma má impressão aos passageiros e tripulantes da aeronave.

- Cansado da viagem, resolvi tirar meu sapato e foi um Deus nos acuda no avião. Quase que o bicho muda até de rota por causa do chulé que invadiu a cabine. A pedido do pessoal, coloquei outra vez o sapato e pudemos descer no aeroporto de Maceió - conta o ex-jogador.
 
Jacozinho ainda pensa em voltar a trabalhar no CSA (Divulgação/CSA)
Bom de papo

Jacozinho dava um jeitinho para tudo. Convencia os dirigentes a aumentar o “bicho” e muitas vezes teve até as contas pagas em Maceió por torcedores do Azulão.

-No auge da minha carreira no CSA não precisava gastar dinheiro. Num restaurante, ou o dono não cobrava ou sempre aparecia um torcedor endinheirado para pagar. Era tratado como um rei em Alagoas - lembra.


Com esse status em Maceió, ele se juntou ao jornalista Márcio Canuto e alimentou o folclore em torno de seu nome. O jogador se lançou candidato a uma vaga na Seleção Brasileira em 1985 e, com algumas reportagens na TV Globo, conquistou o país.
 
-Se o seu Avaristo (SIC) me convocar, eu vou tentar fazer o máximo. Sou um ponta agressivo, jogo nas duas, e jamais os laterais vão conseguir me pegar porque meu futebol é alegre e objetivo - vendeu o seu peixe o bom Jacó para o técnico Evaristo de Macedo, então comandante da Seleção Brasileira. A repercussão foi tamanha que o treinador até falou sobre o ídolo do CSA.

- Ele é um bom jogador, mas é claro que precisa se integrar a um grande time para mostrar todas as qualidades. Tenho visto os gols dele no Fantástico, realmente são sensacionais e, sobretudo, gosto do espírito dele, dessa vontade que tem de chegar à Seleção. Ele vai lutar, vai continuar e quem sabe... - declarou Evaristo, em entrevista ao Globo Esporte em 1985.
 
Zico e Jacozinho nos anos 80 (arquivo Jacozinho)
A história de um gol eterno

Jacó parece ainda não ter saído do cenário de um jogo no Maracanã. Em 1986, Zico promoveu uma grande festa no seu retorno ao Flamengo. Na partida especial, o craque defendeu o Rubro-Negro no duelo com uma seleção formada por grandes nomes do futebol mundial.

A saga começou quando Jacozinho foi jogar com o CSA contra o Cruzeiro, em Belo Horizonte, e resolveu tentar a sorte no Rio de Janeiro. Ele foi assistir a um jogo do Vasco no Maracanã, e o repórter da Rádio Globo Washington Rodrigues ao ver o “astro” no estádio convidou Jacó para comentar a partida.

Ele assumiu o comando da jornada e não teve pra ninguém. A torcida do Vasco deixava de prestar atenção no jogo para ouvir as histórias do boleiro. Naquela mesma semana, Zico programava sua festa no Maracanã, e o repórter Márcio Canuto tentou colocar o craque do CSA no “scripit”.

- Com aquele jeitão, o Márcio me disse: vamos, Jacó, vou lhe apresentar ao Zico e você vai entrar nessa festa, meu filho. O povo quer que você jogue - lembra Jacozinho.

Na apresentação ao craque do Flamengo, o sergipano percebeu que as coisas não seriam tão fáceis.

-O Zico mal pegou na minha mão e virou de costas. Quis ir embora, mas já tinha feito amizade com outros jogadores, como o Júnior, e o Márcio me convenceu a ficar.

Jacozinho contou que ficou esperando ansioso pela oportunidade de entrar. Ao seu lado, o técnico da seleção era Telê Santana, que assistia ao jogo tranquilamente, sentado no banco de reservas.

-Eu estava aperreado porque queria mostrar o meu futebol. Era a chance. No segundo tempo, a partida estava morna e, de repente, a massa começou a gritar meu nome: ‘Jacozinho! Jacozinho! Jacozinho!’ Eu era o circo que o povo queria, e o Telê resolveu atender à torcida. Me chamou para conversar e mandou eu entrar no lugar do Falcão.
 
A jogada

Jacó entrou endiabrado em campo. Buscando o jogo a toda hora, o jogador percebeu em certo momento que Maradona havia recebido a bola sozinho no meio-campo. Partiu em velocidade e foi lançado pelo gênio argentino no meio da defesa do Flamengo. O ponta dominou a bola em velocidade, deu um drible da vaca no goleiro Cantarelle, ganhou do zagueiro Figueiredo na corrida e cutucou para o gol vazio.
 
-Foi a consagração. Depois daquele gol, amigo, a torcida esqueceu o Zico e só gritava o meu nome. Saí do Maracanã consagrado. No outro dia, as manchetes destacavam: Jacozinho rouba a festa de Zico - narra Jacó.
 
Um jogador que desprezou o futuro

Mas o auge é apenas a antecâmara da decadência. Jacozinho era um legítimo representante da maioria dos boleiros. Descompromissado, nunca pensou em poupar dinheiro ou se preparar para o fim da carreira. Em determinado momento da vida, teve certeza de que daria um chapéu no tempo e seguiria fazendo a alegria da massa.

- Infelizmente, o tempo me pegou. Sofri muito na minha vida. Depois de ter chegado tão longe, vi tudo despencar. Cheguei até a dormir embaixo de uma arquibancada porque não tinha para onde ir. Tive problemas com álcool e, por causa das farras, das mulheres, fiquei sem um tostão no bolso quando parei de jogar. Foi duro olhar para os lados e não saber o que fazer - conta Jacó.

O impacto do fim da carreira demorou a ser absorvido pelo jogador, mas com o tempo e as lições que aprendeu foi buscar outras formas de ganhar a vida.

-Depois me converti, aceitei Jesus e tudo começou a mudar. Trabalhei como treinador e em cargos públicos, me envolvi com a política e hoje estou tocando um bonito projeto numa Escolinha de Futebol em Simões Filho, na Bahia. Aos poucos, vou me reerguendo. Fico muito feliz por ter marcado essa torcida tão grande de Alagoas e, no futuro, quem sabe, não posso voltar a trabalhar no CSA, não é?
 
Histórias

Jacozinho continua sendo um excelente contador de “causos”. Talvez o melhor que já tenha passado pelo futebol de Alagoas. Carismático, ele ainda é o centro das atenções por onde quer que vá. O sonho de vestir a camisa da Seleção Brasileira ficou perdido no tempo, mas os gols e os títulos conquistados no CSA estão registrados nos arquivos do esporte, na história do clube e, principalmente, na memória de quem teve o privilégio de vê-lo atuar no Estádio Rei Pelé.

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