quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Os acordes de um pacto

Após a Segunda Grande Guerra, o mundo vivia um período de estagnação. As pessoas eram subservientes, moralistas e cumpridoras de seus pequenos deveres. Havia barulho apenas nos guetos: os discriminados cantavam seus lamentos em igrejas protestantes ou em bares sombrios e esquecidos. Eram os tempos das grandes bandas, dos cantores clássicos e do country, músicas eminentemente brancas.

Mas os ventos da rebeldia começaram a entoar uma melodia dissonante. O gospel, música sacra, começava a ganhar muitos adeptos, assim como o blues, música profana, dava mostras de seu potencial pelo mágico feitiço que impunha a seus adoradores.
O blues e o gospel viajavam por caminhos difíceis e distintos, mas, um dia, se encontraram em uma encruzilhada do destino e um pacto entra as forças do bem e do mal foi firmado. Nascia assim o rock and roll.

 As trombetas do apocalipse começaram a soar e o mundo entrou na década de 50 clamando por transformações. Havia uma grande inquietude, principalmente entre os jovens: a humanidade precisava de motivos para se libertar, mudar, renascer, e o rock and roll foi o estopim do novo Big–Bang.

Nos primeiros rifles de guitarra e nos primeiros discos já se podia respirar o oxigênio da revolução. O rock, no início da década de 50, era um movimento segmentado e descriminado pelos cidadãos de “boa família”. Aquela música que deixava as pessoas em transe, era, no princípio, menosprezada pela sociedade e pelas rádios brancas.

Um dia, um jovem visionário de nome Alan Freed resolveu tocar em seu programa de rádio um blues com acordes mais quentes, e a audiência triplicou. Seus bailes ficaram conhecidos nos Estados Unidos e o rock começou a entrar, definitivamente, no inconsciente coletivo. Nesse período, um negro genial chamado Chuck Berry começou a dar ao rock o seu verdadeiro sentido. Músicas como “Maybeline”, Roll over Beethoven” e Jonny B. Good forjaram o estandarte dos novos tempos.

Ainda na década de 50 o mundo ficou conhecendo os mensageiros da revolução inconsciente. James Dean ensinava no cinema quais eram os caminhos da humanidade e Elvis Presley destruía as barreiras do som com sua música alucinante e seus passos frenéticos. Talvez o mundo não estivesse preparado para eles, mas, é certo, que depois deles, o sol jamais nasceria da mesma forma.

Elvis Presley
Elvis Aaron Presley fez com que os brancos ouvissem o rock and roll e os negros se identificassem com um branco que cantava com a alma e a voz dos negros. A chegada de Presley mudou a potência daquele movimento que até pouco tempo era desprezado pelas grandes rádios americanas.

Rapidamente o rock se tornou a religião da juventude e uma praga divina para sociedade. De todos os lados espocavam talentos: Jerry Lee Lewis, Bud Holly, Carl Perkins, Ritch Valens, Fats Domino, Litlle Richard e Leiber and Stoller se tornaram os responsáveis pelos sistemas nervosos dos seguidores do rock.

Havia um brilho diferente nos olhos das pessoas, talvez eles tivessem se tornado grandes bolas de fogo, como disse o “Killer” Jerry Lee Lewis quando se apresentou com seu piano em chamas.

Os discos de rock, mais precisamente de Elvis, vendiam como água no deserto, as multidões enlouqueceram e a música, pela primeira vez na história, modificou ações, gerando ideais de liberdade adolescentes.

Mas o fim do primeiro tomo dessa história estava próximo. James Dean viu o vermelho do sol cegar sua juventude em uma curva do destino. Um Porche prateado foi destruído por um motorista que vivia a ficção na realidade. Foram enterrados com Dean delírios jovens de um mundo há muito envelhecido.

A morte de James Dean foi um presságio de dias terríveis para os novos tempos. Rich Valenz – que estourou nas paradas de sucesso com “La Bamba”-, Bud Holly e Big Bopper perderam a vida em um terrível acidente de avião; Jerry Lee Lewis se casou com a prima menor de idade e foi praticamente banido do mundo artístico, e Elvis Presley se rendeu às pressões de seu empresário, coronel Tom Parker, e foi para o Exército Americano.

Jerry Lee Lewis
Acontecimentos em série destruíram o mundo das fantasias e o ano de 1960 chegou apenas com as seqüelas das convulsões febris geradas pelo rock. Os conservadores pareciam ter vencido a guerra contra a revolução da armada jovem.

O rock and roll estava praticamente sepultado. Mas em poucos meses suas raízes provaram ser mais fortes que as de qualquer outra música. Bem longe dos Estados Unidos, o movimento ressurgia e a Inglaterra, ou melhor, Liverpool, foi o ponto de partida de uma das maiores transformações comportamentais que o mundo já viu.

Surgiram quatro cavaleiros do apocalipse levitando em uma grande torta fumegante. O mundo foi dividido entre o amor e a guerra, e a humanidade passou a guardar um nome tão forte quanto um mantra indiano: Beatles.

No começo, John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Star não tinham a menor noção do potencial daquela banda carismática que se apresentava em um pequeno clube de folk e blues chamado “Cavern”. O poder de persuasão daqueles quatro rapazes foi poucas vezes igualado na história. Os Beatles roubaram mentes e almas de toda uma geração, simplesmente com músicas e letras.

Ringo, John, Paul e George no Sargent Pepper´s
Os primeiros discos da banda mais conhecida de todos os tempos misturavam baladas, com um pouco de country, blues e o rock and roll fulminante. A fórmula do sucesso beatificou os Beatles e ninguém poderia ser indiferente a eles.

A evolução da banda foi inacreditável. A competição entre os Beatles e os Beach Boys, do famoso disco Pet Sounds, proporcionou à música novas nuances. Surgiu um rock alternativo, marcado por instrumentos exóticos e clássicos que se misturavam numa salada poética. Havia uma incrível diferença entre as faixas de um mesmo disco. Os rapazes de Liverpool ganharam o reconhecimento da crítica a partir do álbum “Revolver” e foram canonizados com “Sargent Pepper´s Lonely Hearts Club Band”, do ano de 1967.

Rolling Stones
E os anos 60 foram por demais generosos com o rock. Existia a antítese dos Beatles. A expressão da maldade e do politicamente incorreto nasceu com os Rolling Stones. Mike Jager foi o porta-voz do inferno. Letras debochadas, um som mais pesado e apresentações cinematográficas. Os Stones destruíram a tradicional fleuma britânica e seu clássico “Satisfection” se tornou o hino do rock and roll.

Repentinamente, a poesia começou a fazer parte dos acordes da revolta. As letras se tornaram mais importantes que as músicas. Ninguém dançava ao som de Bob Dylan, pensava-se ao som de Bob Dylan.

Jim Morrison abria as portas da percepção possuído pelo espírito de um velho índio. A tempestade libertava anjos e demônios e trazia The Doors de volta ao palco.

Jimi Hendrix
A terra passava por um momento de ebulição. Naqueles tempos as ideias eram mais importantes que a própria vida. Jimmy Hendrix conseguia tirar acordes divinos ou satânicos nos rituais em que empunhava sua metralhadora de notas distorcidas, e Jane Joplin cantava as dores da primavera ou quem sabe do verão no trovejar de suas cordas vocais.

Mas, na história do rock, genialidade sempre foi sinônimo de autodestruição. Hendrix, Joplin, Morrison se entregaram às drogas e morreram muito cedo. Nos anos que se seguiram os pensamentos voaram  com Led Zeppelin, The Who, Pink Floyd, Van Halen, Ramones, Queen, U2 e, porque não dizer, Mutantes

Às batidas do velho rock foram incorporados novos ritmos e o movimento começou a ser desvirtuado. Os anos 90 terminaram sendo assombrados por velhos fantasmas. Muitos heróis tombaram em pleno combate, mas com suas poesias de juventude eterna e suas guitarras maravilhosas eles conseguiram, irreversivelmente, mudar o mundo. Agora o pacto já pode ser desfeito.

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