sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Os hábitos de Graciliano


O escritor alagoano Graciliano Ramos não tinha hábitos comuns. Lia a Bíblia, mas era ateu praticante. Não gostava de vizinhos, mas adorava crianças. Não era homem de excessos, mas apreciava aguardente e não saía de casa sem a carteira de cigarros Selma. Consumia três maços por dia.

Graciliano com a neta: escritor adorava crianças (foto: Arquivo FolhaPress)
Militante do Partido Comunista Brasileiro a convite de Luís Carlos Prestes, foi preso duas vezes e, perseguido pela ditadura Vargas, dizia lutar pela morte do capitalismo. Odiava a burguesia com força desproporcional à permitida por sua magreza convicta.

Em 1928, quando prefeito de Palmeira dos Índios, interior de Alagoas, costumava soltar os presos que ajudassem na construção de estradas. Ficou dois anos no poder, colecionando desafetos e aborrecimentos. Contrário aos hábitos boêmios da maioria dos escritores, redigiu todos os livros pela manhã, à mão. Perfeccionista incorrigível, reescrevia várias vezes as obras antes de publicá-las. Jamais revelou preferência por nenhuma delas.

Entre livros póstumos e coletâneas, teve 21 obras publicadas. A primeira delas foi Caetés, com surrados 34 anos. Perguntado certa vez sobre sua biografia, o alagoano respondeu na lata, lançando mão do famoso humor ácido:

“Os dados biográficos é que não posso arranjar, porque não tenho biografia. Nunca fui literato, até pouco tempo vivia na roça e negociava. Por infelicidade, virei prefeito no interior de Alagoas e escrevi uns relatórios que me desgraçaram. Veja o senhor como coisas aparentemente inofensivas inutilizam um cidadão. Depois que redigi esses infames relatórios, os jornais e o governo resolveram não me deixar em paz. Houve uma série de desastres: mudanças, intrigas, cargos públicos, hospital, coisas piores e três romances fabricados em situações horríveis – Caetés, publicado em 1933, S. Bernardo, em 1934, e Angústia, em 1936. Evidentemente, isso não dá uma biografia. Que hei de fazer? Eu devia enfeitar-me com algumas mentiras, mas talvez seja melhor deixá-las para romances”.

Morreu em março de 1953, aos 60 anos, sem terminar o último capítulo de Memórias do Cárcere. Obra inacabada, mas contundente. O tempo fez curvas e o Velho Graça é reverenciado ainda hoje por sua imensa contribuição literária, inspirando escritores e, sem floreios, denunciando a miséria do povo que sempre defendeu. Para ele, não haverá arte onde não houver sofrimento. Não se trata de pessimismo, apenas de uma velha matéria ensinada pelo sertão a quem se aventura por suas paragens.

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