domingo, 6 de abril de 2014

Encontro com Lêdo Ivo

Certa vez, encontrei o poeta alagoano Lêdo Ivo em Maceió, e conversamos sobre literatura, influências e futuro. A quem não conhece esse artesão das frases, vale dizer que João Cabral de Melo Neto cravou sobre o seu trabalho: "Se morresse jovem, Lêdo seria o Rimbaud brasileiro, seria o novo Castro Alves'. Espirituoso, o poeta considerava a vida mais importante que o sucesso. Para ele, a posteridade começa com pó, e a morte tem o poder até de sepultar os túmulos.

Lêdo Ivo, poeta alagoano (foto:arquivo Lêdo/Divulgação)
Movido pelo sangue quente nordestino, Lêdo fez algumas inimizades literárias. Odiava Oswald de Andrade com a ênfase das duras palavras e já travou disputas memoráveis na Academia com Eduardo Portella, um de seus doces inimigos. Mas tudo ficava no campo lírico da crítica. O poeta era amável e sempre disposto a atender jornalistas curiosos ou inconvenientes. Só não por telefone.

A Maceió que o inspirava tinha a luz forte do farol e o cheiro de maresia. O casario de seu tempo, ficou em seu tempo. Na visão do poeta, a nova cidade, repleta de luzes, ofusca o brilho da lua no mar, e se perde nos traços que lembram a frieza de Miami.

Lêdo bebeu a vida até os 88 anos, envergando o estandarte do verso, da prosa e, principalmente, da palavra. Passou sozinho por onde quis e abriu passagem na memória literária nacional.  Aos jovens poetas, a mim sentenciou, sem cerimônias: 'Antes de se meter a versejar, ouçam o conselho dos livros. Lá residem o novo e o velho poeta'.

A PASSAGEM
 
” Que me deixem passar – eis o que peço
diante da porta ou diante do caminho.
E que ninguém me siga na passagem.
Não tenho companheiros de viagem
nem quero que ninguém fique ao meu lado.
Para passar, exijo estar sozinho,
somente de mim mesmo acompanhado.
Mas caso me proíbam de passar
por ser eu diferente ou indesejado
mesmo assim passarei.
Inventarei a porta e o caminho.
E passarei sozinho “.  (Lêdo Ivo)

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