quarta-feira, 16 de abril de 2014

O filósofo Cícero e a defesa do entardecer

Vivemos tempos estranhos. A massa pobre do corpo tenta domar a alma, sugar o pensamento e alienar as memórias. A pressa se contrapõe à razão. No corredor entre as duas portas, lembro aos jovens que seu tempo não acabou com a infância. Reflitam. Não são poucas as crianças que coordenam a imaginação para simular o adulto. Querem adiantar os ponteiros, mas não podem. É cedo ainda, é imaturo. Nem podem, da mesma forma, atrasá-los.

Cícero no Senado Romano
A inconsequência juvenil, não nego, tem certas virtudes. É o impulso sobre a resistência, é a tempestade sobre a calmaria, é o período de entrega ao desconhecido. Nele, o intrépido tende a saltar de um desfiladeiro apenas para decifrar a altura. Até os mais ousados, advirto, tendem a ser devorados pelo tempo antes do encontro fatal com o chão. Quase todos sobrevivem.

O filósofo Cícero discorreu sobre o tema com humor e pertinência. Aos velhos, cabe manter aberta a janela das descobertas e ferir de morte seu lado triste. Até fazê-lo prisioneiro pode causar danos irreparáveis à existência. Não devem, por nada, deixar o tempo preso à juventude e suas inquietações. Precisam seguir em franca atividade intelectual, buscando novas respostas para antigos desafios.

Cícero não renega as virtudes de cada idade, mas nos convida a conviver em harmonia com o presente. Dizia, entre romanos obcecados pela força: "Acaso os adolescentes deveriam lamentar a infância e depois, tendo amadurecido, chorar a adolescência? A vida segue um curso preciso e a natureza dota cada idade de suas qualidades próprias. Por isso, a fraqueza das crianças, o ímpeto dos jovens, a seriedade dos adultos, a maturidade da velhice são coisas naturais que devemos apreciar cada uma em seu tempo".

 Aos 36, louvo as experiências pueris com a mesma ênfase que preparo o desfecho com o olhar lírico do viajante. Não desprezo tempo algum, nem tento desmentir os fios brancos que me cortejam. Afinal, qual Cícero, cobiço de longe a expressão artística, e sua essência é tão somente a busca por nossas últimas frases.

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