terça-feira, 6 de maio de 2014

Ariano Suassuna, o encantador de histórias

Ariano Suassuna instiga quem se mete a escrever. O tom de seus diálogos tem o humor afiado, pronto para cortar qual navalha até leitores iniciantes. A subversão de seus personagens prende e provoca. O autor de 'Auto da Compadecida' navega por rios revoltos e foi até chamado de anticlerical por alguns padres. Católico de crucifixo no pescoço, ele responde que a crítica atinge apenas os sacerdotes ruins, é um alerta à igreja para os desvios comuns dos sem vocação.

Além de encantar a palavra escrita, Ariano trata a língua falada com impressionante desenvoltura. Segura plateias imensas, compostas por gente de todas as idades, com voz rouca, poesia e histórias fascinantes. Assim, percorreu o Brasil nos últimos anos, mesmo confessando intrincado litígio com  aviões e aeroportos. Há pouco, frequentou as primeiras posições das redes sociais por se deitar no saguão enquanto aguardava um voo. Hábito do escritor, a ação virou bandeira de revolta. Sem querer, o sapato serviu direitinho.

Ariano Suassuna (Foto: divulgação)
Ariano é radical em suas convicções. Defende a pátria com a ênfase e a ousadia de Quixote, e considera os estrangeirismos novos moinhos, que devem ser combatidos com lança, capa e espada. Para ele, alguns adjetivos não devem ser usados, por nada, em vão. Gênio é palavra pesada demais para homens comuns. Deve ser aplicada apenas a exceções do porte e biografia de Beethoven ou Camões.

O Nordeste foi muito bem contado nas obras do escritor paraibano. A Pedra do Reino, por exemplo, traz um Pedro Dinis Quaderna atormentado pela busca dos vestígios de Dom Sebastião, o rei português que sumiu na África depois de profetizar seu retorno triunfal. Por entre as risadas, o cenário e a dor da região que sempre defendeu, Ariano apresenta traços de sua tragédia. A perda brutal do pai atormentou o escritor por toda a vida e se fez fantasma na extensão de seu trabalho. O louco, o mentiroso e o palhaço são elementos comuns em sua narrativa, e a tristeza que envolve até os versos alegres destes faz do escritor um encantador de histórias. Simples como os repentistas, Ariano Suassuna ensina que o Brasil real há de vencer o oficial quando o interior for enfim descoberto. "E será", profetizou o autor nordestino, com a licença, o talento e as armas que dispõe.

"O otimista é um tolo. O pessimista é um chato. Por isso,
me considero um realista esperançoso". Ariano Suassuna

Obras selecionadas

Uma mulher vestida de Sol, (1947);
Cantam as harpas de Sião ou O desertor de Princesa, (1948);
Os homens de barro, (1949);
Auto de João da Cruz, (1950);
Torturas de um coração, (1951);
O arco desolado, (1952);
O castigo da soberba, (1953);
O Rico Avarento, (1954);
Auto da Compadecida, (1955);
O casamento suspeitoso, (1957);
O santo e a porca, (1957);
O homem da vaca e o poder da fortuna, (1958);
A pena e a lei, (1959);
Farsa da boa preguiça, (1960);
A Caseira e a Catarina, (1962);
As conchambranças de Quaderna, (1987);
Fernando e Isaura, (1956)"inédito até 1994".

Romance

A História de amor de Fernando e Isaura, (1956);
O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, (1971);
História d'O Rei Degolado nas caatingas do sertão /Ao sol da Onça Caetana, (1976)

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