segunda-feira, 12 de maio de 2014

Conheça os roteiros literários

A literatura e seus atrativos turísticos. Não há erros propositais na frase. Sem dúvida, por triste constatação, poucos se dão conta no País da força do roteiro literário. E não são escassas as referências. A quem teima em acompanhar o blog, sugiro viagens por cidades de impacto comprovado dentro do tema. A intensa atividade cultural, afirmo, vai ampliar o horizonte dos textos e mudar a dimensão da leitura.

Um exemplo de monta é cortado pelo rio Tejo. Lisboa atrai desde a década de 50 milhares de seguidores de Fernando Pessoa. Todos querem tomar um café no bairro do Chiado, andar pelas ruas povoadas pelo olhar infinito do poeta e cumprimentar sua estátua. Há quem garanta ter ouvido respostas devastadoras no lugar.

Estátua de Fernando Pessoa no Chiado, Lisboa
A Europa se veste com os trajes de seus grandes escritores para ajudar o leitor a se perder no tempo. Deve-se conhecer a Irlanda sob a orientação especial de James Joyce. As raízes de seu país estão espalhadas pelos livros e poemas. Para celebrar essa união perfeita, Dublin comemora o Bloomsday em 16 de junho. E a homenagem não é ofertada simplesmente à memória do autor, mas a seu personagem de maior relevância. Protagonista de Ulysses, Leopold Bloom é exaltado nas 19 ruas que percorreu da capital irlandesa. No dia escolhido, os leitores mais fieis se caracterizam como os dublinenses de 1904, o tempo real do livro, e se encantam com as passagens por Joyce narradas.

Miguel de Cervantes é lembrado com ênfase nas principais cidades espanholas. Na região da Mancha, onde Dom Quixote pensou em mudar o mundo, os personagens ganham vida e os doces do tempo do fidalgo ainda são servidos. Pode-se achar o rastro do cavalo Rocinante pelos caminhos reais que levam aos moinhos, os monstros agressivos da loucura.

Podemos seguir por estradas literárias não menos apaixonantes no Brasil. "O Tempo e o Vento" traça o perfil do gaúcho e explica como nossas fronteiras foram delimitadas pelo imponente Rio Grande. Nas Missões, é possível ainda ouvir os tambores dos índios rebeldes ou catequizados. A fictícia Santa Fé tem os traços e as ruas parecidos com os de Cruz Alta, terra do autor imortal Érico Veríssimo.

Farmácia frequentada por Leopold Bloom, em Dublin (Foto: Julien Behal/PA)
Em Maceió, Graciliano Ramos desvenda as ruas do Bebedouro e do Sol, e a Praça dos Martírios, tão comuns a quem corta a atual cidade. O alagoano revela em "Angústia" alguns mistérios da condição humana e suas complexas inquietações. Taperoá, na Paraíba, ganhou impulso literário pelas mãos de Ariano Suassuna. Os quatro anos em que viveu na pequena cidade multiplicaram o encanto de sua imaginação. A Bahia, óbvio, pertence a todos os santos e a Jorge. Ninguém poderia contar as histórias do Recôncavo com o talento e a verve de Amado.

Há caminhos que nos levam a Fernando Sabino em Belo Horizonte. Os bairros famosos, a tradicional Igreja do Barro Preto e a sentença perto do fim resumem este artigo: imagine se você fosse o personagem de um livro. Não é difícil nas cidades encantadas pela linha literária. Basta refazer os traços dos escritores, inspirar-se e segui-la.

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