terça-feira, 20 de maio de 2014

Um livro capaz de golpear o tempo

Muito se fala sobre Dom Quixote de la Mancha e a força das palavras espalhadas pelo cavaleiro andante. Antes de discorrer sobre o herói louco que lutava contra as certezas, vamos buscar referências importantes de seu criador. Miguel de Cervantes escreveu o livro amargurado. A arte, muitas vezes, não é capaz de sustentar o autor. Não foram poucos os escritores, poetas e dramaturgos que precisaram fazer serviços burocráticos ou braçais enquanto produziam cultura. Cervantes foi um deles.

Sancho e Quixote por Pablo Picasso
A literatura não lhe rendeu dinheiro. Foi soldado na Itália, preso e até escravo, quando sua embarcação foi abordada por corsários berberes, em 1575. Foram cinco anos de desespero na Argélia ao lado do irmão, sendo torturado diariamente pela sombra da morte. Perdeu a mão ao disputar um duelo e, após conhecer todos os sertões do sofrimento, se estabeleceu como fiscal de impostos na Andaluzia, Espanha. Não foi uma escolha acertada. Por não recolher soma devida ao estado, foi levado ao cárcere em Sevilha. Na prisão, atormentado pelas obrigações impostas pela sociedade, começou a escrever o livro que o consagrou.

Cervantes fez com Dom Quixote uma sátira aos romances de cavalaria, extremamente populares em seu tempo, e criou um dos personagens imortais da literatura. O cavaleiro de triste figura lutava pelo amor de Dulcinéia, por verdades inventadas e pela utopia. Perdeu todas as batalhas que travou e arrancou risadas de quem o flagrou no exercício da bravura inglória. Foi amigo leal de Sancho Pança, que tentou ao longo da épica jornada demovê-lo da loucura. Mas o cavaleiro não queria ser curado. O mundo imaginado e os moinhos que atacava eram bem menos perversos que o cotidiano triste e repetitivo dos normais.

A história se reproduziu ao longo tempo, ganhou traduções para mais de 60 países e foi reverenciada por artistas relevantes. O pintor Pablo Picasso tem forte influência de Cervantes, o escritor Fiódor Dostoiévsk confessou seu fascínio pelo espanhol e Richard Strauss chegou a compor um poema sinfônico baseado em Quixote. Os personagens tiveram ainda projeção nos quadrinhos e no cinema e podemos ainda encontrar traços do cavaleiro na literatura moderna. Cenários produzidos por Cervantes em 1600 são repetidos, inconscientemente, por jovens escritores.

Quixote não caiu pelas mãos do cavaleiro de Branca Lua. A lança afiada e o discurso incomum seguem caminho pela Mancha e encontram seguidores do fidalgo entre risos, mortes e vivências.
A loucura foi cortejada por ele ao ler de forma inadvertida e imaginar a turva realidade com a visão
aguçada pelo livro. Suas memórias têm comprovado poder de formar legiões de rebeldes literários, alimentadas apenas pela intuição, a arte e pensamentos mágicos de mudança.



"À força de tanto ler e imaginar, fui me distanciando da realidade ao ponto de já não poder distinguir em que dimensão vivo" - Dom Quixote.

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