terça-feira, 3 de junho de 2014

Quintana e a poesia que ateou fogo nos mares

O poeta Mário Quintana costumava ser indagado sobre a falta de engajamento nas questões sociais. Ele dizia que se pudesse mudar os tristes cenários do país se candidataria a algum cargo público, tentaria fazer da política uma forma de ajudar aos que precisam. Mas advertia em seguida que não tinha vocação para a carreira nos palácios, cercado pelos entraves burocráticos. Serviria ainda pelos dias que lhe restavam às causas oníricas da poesia.

A resposta deixou inquieto o interlocutor.

- Poeta, frases também são capazes de causar um levante, de convocar revolução...

- Pois bem - preparou Quintana antes da sentença.

- O público está certo quando o poeta engajado é por exemplo um Castro Alves. Com O Navio Negreiro, influiu no mínimo 60% para a abolição da escravatura. Mas para um poeta influir como Castro Alves na questão social é preciso ter uma coisa que ele tinha, e nós não temos. Castro Alves tinha uma coisa chamada gênio, nós tempos apenas talento - discursou, humilde, o fascinante poeta gaúcho.

As palavras de Quintana instigam a busca pelos versos responsáveis por tão importante passagem histórica. Na voz ressonante de Paulo Autran, O Navio Negreiro ainda hoje singra os mares e espalha sua sombra de dor e repulsa. Ouça, caro leitor, e reflita sobre o tema. Aprecie o tom alto das frases e ateie fogo no comodismo.

O tempo passou e carregou consigo o poder conferido aos poetas. Os de hoje são anônimos literários, acusados pelo senso comum de espalhar frases piegas ou rimas sem sentido. Os gênios e os talentos sumiram na poeira das livrarias. Como são perversas as horas e a coleção de meses. Não sei quantos anos foram responsáveis pela distância da língua, pela alienação de tantos jovens. No entanto, quem discorda de seu tempo, pode ainda em contraponto escolher as palavras, abrir os livros e lutar em valente resistência.



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