quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O dia em que fui assombrado por um disco

Há músicas capazes de nos fazer voltar para casa. Alguns acordes podem revolver a terra molhada pela chuva fina. Vento nas palmeiras, cheiro de maresia, inspiração à solta. Os pensamentos se perdem no ritmo e escapam do bosque renovados, prontos para a revolução. 

Costumo ouvir de tudo um pouco. A música, dizia Wagner, nos coloca em sintonia com nossa essência, nos explica os motivos do inverno e as vontades do verão. Sigo este conceito. Minha vontade de agir é impulsionada por uma sequência de notas e, passando por outras influências, me deparo de vez em quando com o dia em que fui assombrado por um disco.

Até os 13, 14 anos, não sei bem, ouvia falar sobre Beatles, conhecia seus maiores sucessos, mas sem um olhar lírico. Eis que numa tarde mexi na coleção de discos do meu pai e me deparei com um álbum duplo, azul, em vinil, com os quatro caras na sacada de um edifício. Olhos aguçados. Coloquei na vitrola e veio a pancada. Sem cerimônias, fui envolvido por um lamento de notas que mais tarde soube ter saído de um mellotron, instrumento que lembrava um teclado e reproduzia sons de igreja. A música era "Strawberry Fields Forever" e foi feita por John Lennon para revisitar sua infância.

A minha acabara de se perder, de virar lembrança recente e, encantado, me deixei levar pela melodia. Depois vieram outras belas composições. "Penny Lenny" era a infância de Paul, "I am the Walrus" soava de pronto esquisita, frenética, mas ao mesmo tempo sublime. Não poderia ser uma música composta na década de 60. Tinha o veneno da juventude eterna. Havia ainda o som de uma orquestra em "A Day in the Life". Opera, rock ou ambos bebendo da mesma fonte?


Estava fascinado com as faixas. "Let it Be", "Something"... parecia estar no famoso show do telhado, em Londres. "The Long and Windig Road" e seu piano insinuante não precisava de letra, era arrebatadora por si, sem palavras, mas o que fazer se as frases foram encaixadas com métrica e rima?

O poeta Mário Quintana dizia que ninguém nunca sai da casa em que nasceu. O solar dos leões havia sido demolido em Alegrete, mas ele sempre se perdia em seus quartos amplos e ao mesmo tempo escuros, arejados de vez em quando pelo rebelde minuano. Ouvir Beatles me faz voltar ao meu velho sobrado. Aquele mesmo que o tempo e a memória vão manter firme, imponente, até o dia em que o vento virar poeira. Ou música.

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