sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Suassuna e o carrinho de mão

Ariano Suassuna, além de dramaturgo, poeta e escritor de primeira ordem, era um exímio contador de histórias. Cultivava loucos e mentirosos por onde passava e se orgulhava de manter um olhar aguçado, condicionado a buscar inspiração para suas personagens fascinantes. A centelha estava sempre por perto, escondida em gestos, palavras e frases simples do povo.

Ariano Suassuna (foto: divulgação)
Uma das histórias mais engraçadas contadas pelo mestre em suas concorridas palestras aconteceu quando ele ainda era menino. Talvez tenha até ajudado na composição de Pedro Diniz Quaderna, protagonista do romance A Pedra do Reino, e João Grilo, personagem central da famosa peça Auto da Compadecida. A astúcia habita as duas obras.

Quando o pai de Ariano, João Urbano Suassuna, foi presidente da Paraíba (em 1924, não era governador), ele fez uma visita a um hospital psiquiátrico que havia introduzido a terapia do trabalho. Cumpriu as formalidades na área administrativa, descerrou placa e foi visitar o pátio. Tudo em perfeita ordem. Os pacientes estavam organizados em fila indiana, carregando pedras pesadas e sendo observados com cuidado por enfermeiros e médicos. No entanto, o político percebeu que um dos homens aparentava rebeldia, andando mais atrás e com o carrinho de mão de cabeça para baixo.

Segundo Suassuna, seu pai se aproximou do paciente e, em tom professoral, orientou:

- Amigo, amigo, está errado. Veja os demais! Todos estão com os carrinhos virados para cima.

De pronto, a resposta parece ter sido inventada por João Grilo.

- Não, amigo, está certo. Se eu virar o carrinho, eles colocam pedras dentro.

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