domingo, 15 de março de 2015

A lenda de Manoel de Barros

Manoel de Barros, poeta (Foto: Jonne Roriz AE)
Poderia ter sido feito apenas de barro. Peça especial, com detalhes esculpidos pelas mãos hábeis de Vitalino. Ao certo, quem andasse pela feira faria ponto ao vê-lo, buscando respostas. Mas boneco não fala. Não falava, ao menos. Era preciso ainda encantá-lo.

Um velho curandeiro da Amazônia, procurado pelo vento, determinou os trabalhos. Folhas de papiro, réstia de lua cheia e pitadas de poesia. Viria a transformação em sete dias. Carecia esperar. Passou a semana e veio então a tempestade e o tempo se fez água, rio bravo, enchente.

O luar inspirou o boneco de barro, ou de Barros - não sei. Em alguns dias, foi visto pelos lados do Pantanal com gestos simples, andar cansado, sorvendo o dia. As mãos haviam sido domadas pelas ideias e a floresta se entregou aos seus caprichos, sendo explorada com frases capazes de abrir clarões.

Chaves de destravar navios, desvendar segredos e trancar nuvens escuras. Os bichos ainda foram descobertos pelo agora homem, em pelo ou asas, com a alma despida de maldades. Desatino.

Veio a fala mansa, o jeito de quem não quer estar. Os olhos de fogo do boneco, agora homem, como disse, estavam prontos para desenhar as paisagens, pintadas pelo lápis de carvão firme, definitivo. Homem se fez poeta e viu Bernardo render os pássaros com um simples aceno. Estavam à disposição do amigo, mudo para a vida e cantor para os bichos. Era o encanto da lua.

Pelas convenções, foi chamado de Manoel. Manoel simplesmente. Poderia ser de prata, de Lisboa, do Pantanal ou da poesia. Preferiu, ao menos no nome, continuar sendo de barro, ou de Barros, talvez por ter sido tocado pelo primeiro sopro divino: a palavra. Só ele sabe.


Dia da poesia

Não gosto de escrever quando morrem grandes nomes das artes, até porque não morrem. Quando lidos, ouvidos ou vistos, renascem como no dia em que conceberam a inspiração. Por isso, preferi reverenciar o poeta mato-grossense Manoel de Barros no dia da poesia, local mais apropriado para encontrá-lo.

"Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo 'lugar de ser inútil'. Exploro há 60 anos esses mistérios. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc. Faço escavações. Entro às 7 horas, saio ao meio-dia. Anoto coisas em pequenos cadernos de rascunho. Arrumo versos, frases, desenho bonecos. Leio a Bíblia, dicionários, às vezes percorro séculos para descobrir o primeiro esgar de uma palavra. E gosto de ouvir e ler "Vozes da Origem". Gosto de coisas que começam assim: "Antigamente, o tatu era gente e namorou a mulher de outro homem". Está no livro "Vozes da Origem", da antropóloga Betty Mindlin. Essas leituras me ajudam a explorar os mistérios irracionais. Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento" - Manoel de Barros



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