segunda-feira, 2 de março de 2015

Amizade x política: guerra entre intelectuais

Jean-Paul Sartre e Albert Camus eram amigos. Amizade de palavras e princípios, conquistada por caminhos literários. Tudo começou por volta de 1942, durante a Segunda Guerra, quando o livro "O Estrangeiro" recebeu rasgados elogios de Sartre. Na verdade, destaco, ele não fez nenhum favor. Camus fora aclamado pela crítica após o lançamento do romance e recebeu com todos os méritos o Nobel de Literatura em 1957. Sabia juntar as palavras com a habilidade de um artesão.

Sartre e Camus juntos (embaixo da esq. para dir.) - Foto: Gilberte Brassai
Mas o escritor argelino ficou envaidecido pelas frases do francês. Era um salvo-conduto para o reconhecimento. Metrópole reverenciando a colônia. Houve empatia. Viajaram juntos, sempre acompanhados por Simone de Beauvoir, trocaram ideias e compartilharam um gênio criativo, responsável por transformações no pensamento moderno.

Pois bem, em 1952, os amigos romperam na França. Sartre foi um defensor quase fanático do regime totalitário soviético e do comunismo. Camus era contra, tornara-se um antimarxista convicto, mas, ressalte-se, nunca fora um defensor do capitalismo. Guardara uma distância poética das duas ideologias.

Para selar o rompimento, Sartre fez uma crítica ácida ao ensaio "O Homem Revoltado" e desagradou o autor. Foram assinadas juras de maldição em artigos. Amizade partida por frases ásperas e um mundo dividido pela Guerra Fria. Os embates entre os pensadores tonaram-se públicos, formaram labaredas e o ressentimento persistiu até a morte de ambos. Por fim, o fogo consumiu as cartas trocadas entre eles e as cinzas terminaram espalhadas pelas letras.

Nossa sardinha

Ninguém precisa dizer que há divisões no pensamento político brasileiro. As eleições de 2014 criaram barreiras entre amigos, intelectuais e parentes, que defendem suas convicções com destempero e, pior, sem humor. O post, iniciado com o pensamento francês, foi criado para refletirmos sobre o tema e sua relevância em nosso tempo.


Suassuna e a visita ao Recife

Sartre e Camus visitaram o Recife em anos distintos e, vejam vocês, foram recebidos por Ariano Suassuna. Mesmo sendo de esquerda, o grande dramaturgo e escritor brasileiro tomou partido e contou tempos depois que se afeiçoou por Camus, que lhe pareceu mais humano. Sartre não era tão cativante.

Um comentário:

António Jesus Batalha disse...

Ao passar pela net encontrei seu blog, demorei algum tempo a ver o conteúdo, gostei e é um daqueles
blogs que gostamos de visitar.
Eu ficaria alegre se me desse a honra da sua visita e se poder ler um pouco do que escrevi.
Tenha muita paz e saúde.
Sou António Batalha.
http://peregrinoeservoantoniobatalha.blogspot.pt/