quarta-feira, 11 de março de 2015

Quando havia sorvete na lua


Escrevi em postagem recente sobre o disco que me faz voltar para casa. Não demorou a me perguntaram sobre literatura, a quem mais devo entre todos os escritores. Pois bem, não preciso mexer muito nas engrenagens para afirmar que Érico Veríssimo é a resposta. O pouco que sei sobre a forma de escrever aprendi com ele, devorando suas histórias, seguindo suas personagens e percorrendo as paisagens apresentadas em seus romances.

Érico Veríssimo (Foto:Leonid-Streliaev)
O primeiro livro que li foi do escritor gaúcho. Vejam vocês a importância dessa passagem. Em "As Aventuras do Avião Vermelho" ele narrava a jornada de uma criança na lua. Conquista do espaço, descobertas, inquietação. A viagem sorrateira se deu enquanto todos dormiam e os brinquedos, por encanto, se tornaram cúmplices da peripécia. Descobri, por Érico, que havia sorvete na lua e lá, caros leitores, as palavras eram escritas de trás pra frente. De trás pra frente!

Lendo Érico, um pouco mais tarde, entrei na adolescência com "As Aventuras de Tibicuera", um indiozinho esperto que contava a história do Brasil de acordo com as experiências de sua tribo. Depois, "Clarissa" me apresentou os códigos estranhos da juventude.

Quando criança morei num velho sobrado e qual foi minha surpresa ao vê-lo nas páginas de "O Tempo e o Vento". Queria ser imponente como Licurgo Cambará, que não baixava a guarda para maragato e defendia a casa com a bandeira de seu clã.  Meninices, reconheço agora. Mais tarde, li que Gabriel Garcia Márquez se baseou na obra mais importante de Érico para escrever o aclamado "Cem Anos de Solidão". Ana Terra, Pedro Missioneiro, Capitão Rodrigo e Bibiana também viveram em Macondo, entre os Buendía.

Aos 17 anos, alguns de meus amigos perdiam noites lendo a história tradicional, cheia de datas e outras tantas chatices que a grade curricular impõe aos alunos. Eu, por sorte, li em três dias um tijolo chamado "Incidente em Antares". Os bastidores do governo Vargas estavam ali, com seus dramas e personagens complexos. Quitéria Campolargo e Tibério Vacariano debatiam política até entre os mortos. Fascinante, não? Veio o vestibular e a prova de história explorou o período de Getúlio. Não preciso dizer que Érico facilitou meu trabalho. O mestre me deu quase todas as respostas.

A vida girou no carrossel reluzente, apresentou outros escritores, mas, grato, não me esqueço do velho Érico. O gaúcho sopra as toadas que canto e se faz presente em muitas das minhas frases. Defendo as causas literárias do mestre como os farrapos lutavam pelo Rio Grande. De lenço encarnado e sem bandeira branca.

Quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos - Érico Veríssimo


Um comentário:

Anônimo disse...

Victor, como sempre, vc consegue se superar cada vez mais. Sorver uma a uma das palavras que vc transcreve é viajar por caminhos, mundos e sonhos da imaginação quase real. Parabéns.