terça-feira, 26 de maio de 2015

Suassuna, o louco e o muro

Ariano Suassuna colecionava histórias de loucos e mentirosos para usar, sem parcimônia, no trabalho. Literatura e teatro exigem personagens incomuns de quem cria e o paraibano procurava por eles nos quatro cantos. Desde sempre.

Em Taperoá, cidade base de boa parte da obra de Suassuna, vivia no seu tempo de menino um homem chamado Manoel Bento. Digamos que o cidadão não costumava ter hábitos considerados normais pelos conterrâneos, mas era figura doce, inofensiva e muito querida por todos. O escritor afiançava.

Ariano Suassuna (foto: divulgação)
Segundo Ariano, certo dia, Bento acordou cedo e parou em frente a um muro grande que havia no centro da cidade. Encostou o ouvido na parede e por lá ficou por horas e horas.

A cena estranha chamou a atenção do povo de Taperoá. As fofoqueiras de plantão fizeram soar o alarme. Bento aprontou. Juntou gente e muitos também tentaram decifrar o mistério. O tempo passou e, quando o sol  indicava o início da tarde, aconteceu o desfecho.

Um curioso mais ousado chegou perto do homem, colocou também o ouvido na parede e fez a pergunta necessária.

- Manoel Bento, o que há com o muro?

A resposta, até séria, foi melhor que a cena.

- Não ouviu?

- Não - respondeu o curioso, seco.

- Pois é, tá assim desde cedo.

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