sábado, 13 de junho de 2015

Travessia: os sertões de Brant e Guimarães Rosa

Milton Nascimento e Fernando Brant (Foto: divulgação)
Fernando Brant foi pressionado em 1967 por Milton Nascimento. A música estava pronta, mas faltava a letra. O amigo sabia da capacidade intelectual de Brant e exigiu palavras definitivas. O novo parceiro de Milton nunca havia colocado letra em canções, mas, sem alternativa, no meio do Liso do Sussuarão, se aventurou na música. Estava feito. Encheu a melodia de frases fatais.

O título e as estrofes têm clara influência de "Grande Sertão: Veredas", obra imortal do também mineiro João Guimarães Rosa. Ao ler o livro, tive certeza que a voz de Milton e a letra de Brant interpretavam o drama do jagunço Riobaldo. Nelas, os compositores cantam a saudade de Diadorim. Era a triste partida em versos mágicos. Isso talvez explique o sucesso arrebatador da canção, que marca um momento de mudança na música brasileira. É o nosso Sargent Pepper's.

Não é à toa que "Travessia", título do sucesso que impulsionou a carreira de Milton, é a última palavra do livro de Guimarães Rosa. É a consciência da passagem sem a influência do diabo, sem o pacto. A dor do homem realçada sem a desculpa pronta da superstição. O diabo é apenas o sertão. Tudo foi pensado pelos escritores Fernando Brant e Guimarães Rosa. Hoje, Milton ainda solta a voz em memória dos dois, da literatura e de Diadorim. O amor de Riobaldo representa a poesia mineira de Brant.




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