quarta-feira, 11 de maio de 2016

O silêncio em carne viva


Ouço vozes que passaram. Juntas, faziam barulho pelos corredores e hoje fazem apenas falta. O som é engraçado. Em excesso, inquieta, mexe na melodia tranquila e descompassa o peito com gritos e ruídos. O vazio, não, o nada é o silêncio em cores fortes, em carne viva. A ausência de música ou apenas o som mudo, calado, acorda o desatino que gerou a revolta. Ciclo em desarmonia. 

Queria lembrar o estampido da última palavra. Apertei o gatilho e virei o rosto, livre da culpa e de qualquer propósito. Só não enganei a mim mesmo. O silêncio faz quase sempre tocar o alarme e alastra o som da minha fúria. Posso ouvi-lo com dificuldades, com dentes apertados e chuva no rosto. Silêncio, silêncio... Queria fazer dele canção. Mesmo que fosse triste, que desorganizasse o dia e ferisse a madrugada à faca. Lâmina afiada pela língua. Músicas que ouvimos para incitar a tormenta e forçar a passagem.  


Nem isso. O silêncio não escreve letras nem compõe ao piano. Sei que passa devagar, às vezes calmo, resistindo a tudo o que não for vivo, teimando contra tudo o que for novo. Tem acordo claro com o passado e chega, às vezes violento, para despertar cenas desgastadas, fotos descoloridas pelo excesso de luz.

Bati a porta, e não ouvi o ruído. Imagino como Beethoven compôs a nona. Aprendeu as notas quando criança. Sabia lhes dirigir a palavra, encaixar os sustenidos. Por sorte, havia resposta. Sempre há resposta na arte. Insistia em ouvi-la para libertar a tempestade que o afogava por dentro. Um dia, finalizou a composição. Continuou preso ao silêncio ritmado, insistente, mas renovou a música com o som de tanta dor contida. Encantou as plateias ao redor do tempo.

Bobagem a minha pensar no compositor. Era Beethoven, um escolhido entre tantos gênios para transformar o silêncio em sinfonia. Eu, não, não (...) Nem instrumento sou capaz de domar. Procuro frases que encarcerem tanto silêncio livre e lá está ele, mudo, em destaque, no último parágrafo sem inspiração. Tornou-se até repetitivo, como este caminho estreito pelas ruas que levam ao mar. Continuo. Nem bem sei o motivo, mas sigo caminhando pela noite. Madrugada sob censura.





Descanso um pouco. Passei por tantos silêncios que a roupa está mais pesada. É difícil até carregá-la. Cena em sequência. Estou agora sentado, descalço, com os pés presos à areia fria. Em silêncio, vejo as ondas mais fortes tentando se rebelar contra a praia frágil. Luta desigual. A lua aguça a maré, exige força no movimento da água e estampa sua luz fria no lado triste do meu rosto. Cicatriz branca, aberta à faca pela noite.

Pensei em gritar para amordaçar, enfim, o silêncio. O difícil é escolher a palavra certa, talvez um nome. Talvez. Um grito qualquer, sem letras bem escolhidas, tonteia o silêncio, não o oprime. Apenas a palavra perfeita, bem colocada, pode dar fim ao tormento insistente e fazer ressurgir o diálogo. Não tenho muitas escolhas: poderia ser comigo mesmo. Responderia a mim com um sorriso no rosto. Talvez o primeiro, talvez o último. Sem orgulho, preciso confabular com o silêncio e encontrar uma saída digna para a minha voz em desuso.

Nenhum comentário: