quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Phelps ao espelho

Phelps é uma presa diante do espelho. Do outro lado, irritante, está o maior vencedor olímpico. Parado, com o olhar fixo na imagem, um homem que há pouco tempo se achava menor. Inerte diante da vida fora d'água.

Antes da Olimpíada do Rio, Phelps se via como um herói derrotado. Um mito derretido pela vida real, inglória. Deve ter sofrido a síndrome dos astronautas. Como pagar contas, atravessar a rua, tomar um café sem açúcar, depois de olhar a terra de fora? Ele voltou para a despedida. O filho foi a razão escolhida para seguir, para lutar outra vez. Talvez a última.



O silêncio do espaço é o mesmo das piscinas. O tempo corre diferente nos dois lugares. Quando enfim são fechados os movimentos, vem a euforia. Vitória em manchetes, feito em cartazes, número em almanaques.

O homem pensa estar noutro plano, em dimensão superior, mas logo se acostuma com a cobrança. Queria ainda evoluir, seguir quebrando marcas, ouvir a multidão em fúria. "Phelps, Phelps, Phel, Ph..."

Os gritos vão sendo vencidos pelo silêncio. Tudo muda tão rápido. A piscina agora é apenas um banheiro, o espelho é a realidade. Os recordes estão postos, o nome está escrito no ouro da medalha, do enfeite, e o homem não é mais a lenda. É homem apenas, e precisa agora conviver com o espelho, que, perverso, joga água e tempo na cara do herói.

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