sexta-feira, 14 de abril de 2017

Da letra ao poema: incandescências

Antes do verbo, havia o nada, o vazio que tudo esconde. A letra surgiu da explosão, a palavra da primeira lembrança. E tudo foi tomando forma.

Frases feitas de terra batida, vírgulas entre o vento e a tempestade, pontos finais feitos da mais fria solidão. Os textos nadavam no mar aberto, livro grosso, pesado, tomado por páginas com jeito de onda. Na frente, apenas o horizonte, com capa e estilo livre, às vezes azul, às vezes cinza. Tudo dependia do humor do tempo.



A luz se fez fogo e forjou o poema. Coleção de palavras incandescentes colocadas fora da posição normal. Elas se encaixavam de um jeito estranho, como o magma formava o granito, entre o vulcão e a terra fria, vencida pela superfície.

Pedras foram talhadas por hábeis mãos de quem podia ver no fogo o caminho, a largura da vida. Poderia agora o autor passar por entre as chamas, inflamar o corpo e renascer palavra para quem se pensava apenas vaidade.

E o verso foi soprado pelo vento quente, que uivava nas montanhas do norte e trazia as notícias da chuva para quem vivia longe do mar, do livro aberto. E a chuva, gota após gota, molhava a vida e as páginas da rocha que um dia fora magma. O poema sofreu algumas incisões, molhado que foi por lágrimas e enchentes, e se fez claro diante do sol, dos telhados e dos olhos frágeis de quem queria saber apenas seu sentido.

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